Verdades da vida

É duro dizer a um filho que seu avô morreu. Dei essa notícia a Pedro quando ele tinha seis anos. Havíamos acabado de assistir a um jogo do São Paulo, no Morumbi. Quis contar com ele mais animadinho. Ao ouví-la, já no carro, ele só disse “aaai, eu não queria…” destravou o seu cinto no banco traseiro e me abraçou com muita força e os olhos inundados. Disse o que pude para confortá-lo: “A vida é assim, filho. Ela nos traz e ela nos leva. Todo mundo vai morrer um dia: eu, você, qualquer um…”. Ele foi soluçando no caminho e, uns 15 minutos depois, quando chegávamos em casa, me disse. “Sabe, pai? Eu já não tô mais tão triste como eu estava”. Entrou e, envergando seu lutinho feito uma capa preta de super-herói, foi brincar no seu quarto.

Esse episódio, de qualquer forma, mexeu bastante com a sua vidinha. Ele se deu conta de que a morte também o alcança, e carrega pessoas próximas e queridas. Sua sensibilidade, que já não era pouca, aguçou-se. É sempre complicado explicar as perdas às crianças – e minha impressão crescente é a de que essa dificuldade se deve bem mais a nós mesmos do que a elas. Nós, adultos, é que tememos a morte desesperadamente – e, na maioria das vezes, incutimos esse pavor nas crianças. Elas, pelo contrário, parecem bem mais interessadas em viver. Portanto, se há um enorme favor que podemos prestar aos nossos filhos é, desde cedo, ir habituando-os a certos fatos com os quais, cedo ou tarde, eles irão se deparar.

É o que tento fazer com Pedro, do seguinte modo: criei uma categoria em nossas conversas chamada Verdades da Vida. Ela é como uma pastinha de computador, em que compartilhamos nossas experiências e impressões sobre temas, por assim dizer, mais cabeludos. Sempre que um deles vem à tona, digo a Pedro. “Olha, filho: vamos conversar. Capítulo Verdades da Vida, tá?”. Nessas horas ele geralmente faz uma carinha mais séria e prepara-se para escutar algo que, provavelmente, o incomodará, mas contra o qual, ele já sabe, há pouco que possa ser feito.

Recorro a essa pasta com relativa freqüência. Foi assim quando a sua primeira gata, Pretinha, apareceu em casa com um pássaro morto na boca. Pedro ficou horrorizado. Ou quando, pouco mais tarde, a própria gata, que ele venerava, foi morta pelo labrador de um vizinho. Idem, quando ladrões entraram em casa e viraram tudo de pernas para o ar. Ou quando, após uma derrota fragorosa num torneio de futebol, um coleguinha de time o chamou de “seu merda”. De cada um desses episódios brotou uma pequenina lição, espécie de moral sincera da história. A vida é dura; as pessoas adoecem; às vezes agem mal, nos machucam; amigos mudam de classe ou cidade; às vezes nos traem; há muita pobreza e violência no mundo e a natureza é tão linda quanto cruel.

O grande mistério é passar esses recados delicadamente, a fim de não pulverizar a maravilhosa inocência que a infância comporta. Costumo dizer ao Pedro, em tom de brincadeira, que “quero criar um calinho no seu coração”. Nem tão fininho que o deixe penar demais. Nem tão espesso que o impeça de sofrer.

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