Tio Beto

Adoraria que Pedro e Paulo, frutos de meus dois casamentos, tivessem tido a chance de conhecer seu tio Beto. Mas… nem todos fazem juntos toda a viagem. De todo modo, essa perda foi, até aqui, a grande tempestade em minha vida. Meu tsunami pessoal. Um caldo inesquecível, do qual, é bem provável, nunca mais voltarei inteiramente à tona.

Eu acabara de me mudar para a Itália, como bolsista, e passava as últimas semanas do ano em Paris com Valéria, amigona que viveu ali por certo tempo. Por alguns dias senti-me personagem de um romance de Balzac. Depois, subitamente, num de Dostoievski. No exato instante dessa mudança, estávamos em Montmartre, sob um frio miserável. Valéria insistira para que fôssemos até ali. Insistira, também, para que eu entrasse na basílica do Sacre Coeur. Então, após um volteio desajeitado em meio ao cheiro amargo das velas, ela pronunciou três palavrinhas que arrancaram enormes placas do céu.

– Seu irmão morreu…

Seguiram-se uma realíssima sensação de irrealidade, as indagações de praxe (Como? Onde? Quando?) e erupções alternadas de serenidade e de um pranto incontível. Lembro-me de chorar ao final de cada lance, enquanto descia a escadaria que leva ao pé da colina. Tomamos o metrô. Um desses músicos que ganham a vida tocando entre as estações entrou no vagão – e, é claro, veio direto até nós. Era um jovenzinho americano simpático, assim meio Bob Dylan. Parou bem na minha frente, olhou-me nos olhos (momentaneamente recompostos), e começou a cantar The Boxer, de Simon e Garfunkel. “I am just a poor boy…”. Buáááá… O sujeito interrompeu a canção, paralisado com meu choro. Paramos na estação de Champ Elysées, a fim de que eu pudesse telefonar para casa. Ao ouvir minha voz, vozes choraram do outro lado da linha. A dor era mesmo sem remédio. Eu era um orfão lateral. Na mesma noite regressei ao Brasil.

Não foi exatamente um luto comum. Dois dias depois, soube que Rita, a namorada que deixara há poucas semanas, antes de seguir para a Itália, esperava um filho meu. Foi uma pedreira conviver com uma partida e uma chegada quase simultâneas – ambas tão súbitas e intensas. Minha primeira reação foi enxergar ali as mãos do destino; uma tomando, outra repondo. Deliberadamente, agarrei-me à segunda. Fui deletando a tristeza e fiando-me nas promessas que cresciam naquela barriga. Por alguns bons anos guardei meu irmão Beto em alguma espécie de sótão da memória. Sua lembrança virou uma espécie de tabu. Casei-me, Paulo nasceu, Rita e eu nos separamos.

É impressionante nossa tendência a querer expurgar os episódios dolorosos de nossas vidas. Ninguém quer provar o fel. Só com os anos, e a muito custo, consegui resgatar a memória de Beto, passando a tratá-la com menos medo e tristeza e com a devida saudade e respeito. Meu doce, frágil e generoso irmão. Com cuja memória, após décadas, consigo finalmente conviver em paz.

Hoje, vendo os garotos crescerem, percebo a falta que ele nos faz. O irmão que eu tive um dia. O tio que Paulo e Pedro jamais terão. C’est la vie…

Uma resposta para Tio Beto

  1. deda disse:

    oi odorava seus inos agora ficaram muitos criançolas

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: