Paulo virou cisne

Paulo, meu primogênito, desembarcou neste mundo há quase 22 anos. Tinha, ao chegar, 51 centímetros, pouquinho menos de 4 kg e um par de olhos azuis de uma beleza desconcertante. “Meus pedacinhos do céu”, eu os chamo até hoje.

Nos primeiros meses, ele foi, para mim e sua mãe, uma fonte quase inesgotável de orgulho. Fazia tremendo sucesso entre parentes, amigos e transeuntes. Seus dois faroizinhos turquesa, sob uma sombrancelha espessa e uma pele bem alva, eram o ponto forte de sua figura. Os pezinhos, macios e redondos feito uma massa de pão na iminência do forno, também marcavam pontos. Os cabelos, ligeiramente ruivos e cacheados, uma linda herança materna, idem.

Pouco antes de seu segundo aniversário, porém, sua mãe e eu nos separamos. Imagino hoje que esse fato tenha então deflagrado em sua cabecinha uma pequena e silenciosa revolução. Uma ansiedade difusa, cujo principal sintoma e única cura relacionavam-se à comida, instalou-se em seus hábitos.

Enquanto Paulo era pequeno, seu apetite foi motivo de graça. As avós deliciavam-se, ao vê-lo repetir pratos do macarrão nos almoços dominicais. “Ele adora a minha comida”, deviam ambas imaginar. Dida e Duda (até nisso elas se parecem) chegavam a competir pelas preferências gastronômicas do neto. Numa de suas primeiras avaliações escolares, após as inevitáveis frases como “Paulo está se socializando com muita rapidez” e “participa com alegria das atividades em grupo”, o comentário: “Na hora do recreio ele adora roubar os lanches dos amiguinhos de classe”.

Com o tempo, porém, Paulo foi ficando mais roliço – e sua gula menos graciosa. Começava ali seu tormento. Sua fome indomável, confesso, me exasperava. Vivíamos discutindo. Sua mãe o arrastou a endocrinologistas de todos os matizes. Niente… Uma semana num spa. Niente… Quando muito, perdia alguns quilinhos, logo readquiridos. Sequer as avós se conformavam com a sua voracidade à mesa. Aconselhavam-lhe moderação com doçura. Palavras ao vento. Nos anos finais da adolescência, Paulo voltou a morar comigo. Mais brigas. Eu ficava fulo com sua figura rodeando o fogão, à espera do jantar, feito um leão enjaulado.

Quando todos, enfim, entregaram os pontos, e pararam de encher-lhe o saco, veio a surpresa. “Pai, eu comecei a correr no Ibirapuera e me inscrevi numa academia”. Paulo tinha então dezoito anos – e achamos que tudo não passasse de mais um surto fugaz de sua boa vontade. Pois bem! Daquela vez, nos enganamos. Paulo aplicou-se com extrema determinação. Sem pressa. Com disciplina. Dia após dia. Exatamente como se deve fazer. Em um ano era outro rapaz. A barriga e as coxas enormes sumiram. Seus músculos se delinearam. O rosto resgatou suas formas delicadas e a beleza original. Os faróis azulados voltaram a se acender.

Embora seja seu pai e, portanto, altamente suspeito, ouso dizer. Paulo está lindo. Um gato. Um tesão. É visível o alvoroço que ele causa entre as mulheres. Dia desses o acompanhei à Faap, sua faculdade, um antro de princesinhas paulistanas. Muitas lhe sorriam e beijavam despudoradamente. Imagino que meu garoto, como diria Gilberto Freire, “anda pisando em carnes”. Colhendo a recompensa. Tive vontade de berrar: “Gente, esse cara aí é meu filho”. Claro que não o fiz. Até porque o resgate da própria beleza (e da auto-estima) foi obra exclusiva dele. Paulo virou o jogo sozinho. Pelo que mais pode um pai torcer nesta vida?

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