O Gladiador e o Comandante

Pedro, hoje com 8 anos, por volta dos seis encarou sua primeira batalha contra o constrangimento. Ele ainda fazia xixi na cama. Das avós e amigos à empregada e o pediatra, todos já haviam emitido o seu palpite. “Nada de água depois do jantar”. “Faça não sei o quê e coloque debaixo do travesseiro” Isso! Aquilo! Tudo em vão. Quase todas as manhãs Pedro amanhecia com o pijama molhado e um olharzinho triste de quem intuía que fracassara.

Foi então que uns ladrões fizeram a gentileza de entrar em casa e surrupiar nossos já parcos cacarecos – entre os quais o bendito Nintendo que o menino venerava. Pedro ficou frágil feito uma conchinha – e, para confortá-lo, fiz-lhe a seguinte proposta: dez noites seguidas sem fazer xixi, e eu lhe dou um videogame novo. Fechado! Já na primeira noite, percebi que, de tão ansioso, ele seria capaz de não pregar os olhos um segundo sequer para que o pipi não o traísse. Foi quando, vindo sei lá de onde, acudiu-me um estalo. Resgatei de uma gaveta algumas miniaturas em chumbo de combatentes romanos que comprara (para mim!) em Londres, no Museu Britânico. Separei o gladiador e o trouxe ao quarto de Pedro. “Esse cara” – eu lhe disse, sério – vai lhe ajudar muito na sua batalha contra o xixi”. E, imitando uma daquelas vozes gravemente ternas que a gente ouve hoje nos desenhos animados (tipo Shrek), dublei o gladiador. Ele disse que lançaria uma rede de proteção sobre a cabeça de Pedro e passaria a noite inteirinha ali no criado-mudo (segundo ele, gladiador, um precipício), vigiando o sono de meu menino.

Querem saber? Funcionou! Todas as noites o gladiador fazia a sua graça e dava o seu recado. “A cabeça precisa ser firme”. “Precisa também ser tranqüila”. “Todos nós temos de ser guerreiros”. “Não dá pra ganhar todas”. Virou um ídolo instantaneamente.

Na nona noite, porém, uma recaída quase pôs tudo a perder. E agora? Como deixar barato um pacto tão sério? O próprio gladiador encontrou a saída. Trouxe para ajudá-lo o comandante da legião. Coube a este, o mais inteligente de todos os homenzinhos de chumbo, sentenciar: “Por ter se esforçado tanto, Pedro terá uma segunda chance”. E imediatamente também mudou-se, o comandante em pessoa, para aquele quarto.

O problema xixi desapareceu da rotina de Pedro. E dois personagens maravilhosos se incorporaram ao nosso imaginário familiar: o leal, corajoso e às vezes desastrado gladiador e o sábio comandante. Todas as noites nós quatro trocamos algumas palavrinhas. Os dois tornaram-se símbolo de uma freqüência afetiva em que Pedro e eu podemos conversar livremente sobre os assuntos mais delicados: lealdade, morte, disciplina, miséria, amizade, violência… Pedro os ouve, compreende e acata como a ninguém. Fechou as torneirinhas de seu bimbo e desabrochou como criança.

Esse nosso jogo continua evoluindo, com resultados cada vez mais surpreendentes. Pedro não se desgruda de seus amigões. Confesso que, como pai, também estou maravilhado. Para mim, o Gladiador e o Comandante beiram o sagrado. São a senha de entrada para o coração do meu filho.

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