O Deus das pequenas coisas

Talvez por conta de termos nos mudado de casa no mês passado, uma certa garoa espiritual tem nos salpicado ultimamente. Seguindo os passos da encantadora Adelita, primeira paixão ardente de sua vida, Paulo, meu filho mais velho, pretende passar alguns meses na Índia, um deles enfurnado em um convento budista. O amor o despertou espiritualmente. Paulo é cineasta. Adelita, professora de ioga. Pretendem produzir um documentário sobre a vida de um ex-monge, que reencontrará seu guru, e recheá-lo com fragmentos de imagens da cultura indiana. Que inveja! Por sua vez, Pedro, nosso caçula de 9 anos, na semana passada surpreendeu-nos com essa: – Pai, mãe. Quero ser batizado. Não quero virar judeu…

Disse-lhe que as coisas não eram bem assim. Que sua conclusão era absurda. Que ele poderia ser batizado, sim, se quisesse. Que, como já havia feito com Paulo, deixara a ele, o maior interessado, essa decisão. Breve atenderemos a seu pedido. Por enquanto, ele permanece pagão. A conversa, então, desaguou no inevitável: Deus. – Ele existe, pai? Minha crença, que procuro transmitir a ambos sempre que surge uma brecha, é mais ou menos a seguinte. Deus existe, sim. E cada um o vê a seu modo. Perdoem-me os adeptos do Big Bang. Mas, por mais eu que tente, não dou conta de conceber conceitos como universo, vida, destino, paixões ou sincronicidade sem recorrer ao sagrado.

Martelo, porém, numa clara distinção. Deus é uma coisa. Religião é outra. Ele é um só. Elas (mesmo acreditando que ele seja único) são muitas. Deus é bom. As religiões, mesquinhas. No fundo, todas exibem facetas de arrepiar os cabelos. Padres assexuados ou pervertidos. Pregadores histéricos. Rabinos obcecados. Idiotas capazes de se explodir em nome de Alá. Sim, sim, sim. Há também muitas boas almas nos templos. Mas é a premissa que me incomoda. Parodiando alguém cujo nome me escapa, fé é um assunto sério demais para ser deixado na mão dos sacerdotes. Prefiro verdades mais simples. Por isso, sem muita insistência, incentivo Paulo e, principalmente Pedro, que é mais novinho, a ver Deus em toda parte. Na folha que cai, no vento que sopra, na face da mãe, na comida à mesa, nos desejos que se cumpriram. Se tivesse de chamar esse ser de algum nome, eu me valeria de um livro que nunca li, mas cujo título considero um achado – O deus das pequenas coisas.

Isso mesmo. Deus é aquela poeirazinha do sagrado que habita os vãos dos detalhes. As gentilezas. Um dia de trabalho sereno. Estrelas no céu. A água quentinha a escorrer pelo corpo ao final de um dia. Deus para mim é isso – e, como disse Guimarães Rosa, “todas as outras coisas”. O importante, fundamental, é que cada um possa vê-lo onde e da maneira que bem entender. É provável que Pedro consiga enxergá-lo em alguma fase de um game. Paulo vai até a Índia atrás dele (e da Adelita). Ultimamente o tenho visto com freqüência nos velhos galhos do majestoso flamboyant que enfeita o quintal de nossa nova casa. O sagrado não cabe na caretice das igrejas. Prefere o aconchego de nossos corações. Deus é minúsculo. Por isso pode estar por toda parte.

4 respostas para O Deus das pequenas coisas

  1. Carlos juliani disse:

    Esse sim ,um dos melheres texto que eu ja li e acebei de receber a VIP de AGOSTO 07;CADÊ a COLUNA DO GANDRA??????

  2. Bob disse:

    Zé, dear… concordo com cada letra dessa sua definição de deus. E que ele te abençoe por escrever de forma tão bela e inspiradora!
    bjka

  3. Paulo disse:

    Obrigado! esse texto é muito bom, mim fez sentirme melhor Q/ Deus abençoe todos nós, nesse ano que esta Entrando!!!”Deus o Amigo Certo das Horas incertas!”

  4. Fábio Pessoa disse:

    Saudações! Concordo em parte; normal e faz parte.. Sou cristão convicto, protestante por escolha; creio q Deus não cabe em religião alguma. Isso é coisa nossa, egoismo e vaidade humana mesmo! Mas creio e professo Jesus, O Filho dELE, nosso Salvador e Senhor, e que Ele seja O único caminho para chegar ao Pai. Respeito as demais crenças, e mesmo professando o cristianismo, sei q ELE não cabe em nossas religiões.. abraços a todos!

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