O amor e a amizade

Paulo e Pedro têm suas próprias mães – e uma diferença de idade considerável: treze anos. Sou, digamos, o jovem pai de Paulo (e o quase avô de Pedro). Esse vértice etário tem me permitido viver situações singulares. Questões muito parecidas em sua essência, mas vividas por cada filho de modo absolutamente distinto. Geralmente, essas experiências vêm separadas por um bom lapso de tempo. Às vezes, simultaneamente. Como agora.

Na véspera deste último Natal, Paulo, 22, pediu a mão de sua Adelita ao sogro. O bom homem, com lágrimas nos olhos, aquiesceu. Como ele, eu os abençôo. Pelo menos , eles foram sábios o bastante ao reservar este ano para que, com a devida calma, essa intenção vá se cristalizando em gesto. Se tudo correr bem, aí sim: casam-se em janeiro de 2007.

Nem sempre é fácil ver um filho presa da paixão. Os calabreses chamam-na de fulmine (raio em italiano). Adelita e Paulo foram fulminados um pelo outro. Sucumbiram. Ainda vão atrair borboletas e beija-flores, de tão apaixonados. Vê-los juntos ilumina minha alma.

Confesso que às vezes gostaria de lhes sussurrar na alma as palavras maravilhosamente amargas de O Amor Acaba, uma crônica de Paulo Mendes Campos. O texto, aparentemente pessimista, é uma rajada abrupta de razões e cenários em que as paixões se evaporam. “Na barca, no trem, no ônibus”, lista Campos. Ou na “poeira que vertem os crepúsculos”. Mesmo “quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar”. Todas as frases são acres. Menos a final, de uma tristeza redentora. “Para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto, o amor acaba”.

Gostaria de poder dizer-lhes isso. Mas não posso. Os apaixonados não ouvem ninguém. Vivem imersos em si mesmos. Todo grande amor nos torna tolos. E, ao mesmo tempo, avizinha-nos de Deus. Por isso, os abençôo. A paixão abre os poros do corpo e do espírito. Torna-nos, ainda que por um simples período, absurdamente completos. Quem experimenta esse vendaval quase sempre torna-se alguém melhor. Paulo, por exemplo. O amor de Adelita o fez perceber muita coisa à sua volta. Adoçou-lhe. Sejam então bem-vindos, meu filho e nora, ao mundo dos que vivem e sofrem.

Pedro é outra história. Completará, em agosto, 10 anos. Especulando sobre a futura festa, fez uma única exigência: não convidar nenhuma menina. Pois é. Pedro vive a chamada loucura dos amigos: Guiga, Luca e Titi. Seus pequeninos grandes chapas. Outro amor que dói, de tão grande. Pedro quer estar o tempo inteiro com eles. As meninas, por ora, são seres estranhos. O que conta é a turma – e mais ninguém. Mais nada.

De novo, a vontade de palpitar. Amigos também são fontes de desapontamento, Pedroca. Traem, decepcionam, fazem-nos sofrer – e, mesmo assim, os amamos. A vida é breve, imprevisível e corrida. Por isso, digo a Pedro. “Amigo é muito bom”. Por isso, digo a Paulo: “Ame Adelita com todas as suas forças”. Porque o amor acaba. As amigos acabam. A vida acaba. Ainda assim, bem-aventurados os que amam – e os ainda capazes de cultivar uma grande e verdadeira amizade.

2 respostas para O amor e a amizade

  1. Helia Angotti disse:

    Ze Ruy sou a mae da Nana , adoro seus textos e passei para te deixar um abraço

  2. gandra disse:

    Quanta honra, doutora.
    Retribuo o abraço e essas suas palavras gentis.
    Você, a exemplo da Nana, é uma figura muito doce e graciosa.
    Beijo!

    Zé Ruy

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: