Maus presságios

Recentemente, numa palestra a adolescentes em uma unidade paulistana do Sesc, um dos rapazes da platéia me deu um certo nó nas idéias. O tema do encontro era O Futuro. E ele queria saber, basicamente, o seguinte: se eu deixaria para meus filhos um mundo melhor ou pior que o que meus pais me deixaram? Fiquei triste com minha própria resposta. “Pior”, eu disse convicto. “Muito pior…”

 Verdade. Sinto que entrego aos garotos um mundo cheio de maus presságios. As guerras no mundo. A pobreza, a corrupção e a violência devorando o Brasil. A natureza apitando. A História cheirando a queimado. Quanto tempo até algum fanático religioso se explodir abraçado a uma ogiva, levando consigo alguma grande cidade ou um bom pedaço dela? Vinte anos? Los Angeles? Roma? Sinceramente, creio que meus filhos ainda verão nos telejornais notícias dessa voltagem.

Se limitarmos o cenário ao Brasil, a coisa piora. Me inquieta sacar que o mundo de nossos filhos já não têm mais praças. Eis retrato cruelmente bem acabado do Brasil atual. Um país sem praças. Pelo menos em cidades como São Paulo e Rio, elas sumiram do mapa. Ficaram perigosas. Sujas. Escuras. Vem ajudando a dizimá-las nossa própria ignorância. Praça, para muitos paulistanos típicos (eu sou paulistano, mas não sou típico) é aquele lugar para onde você vai quando seu cachorro quer fazer cocô. Ou morder alguma criança. É o lugar público, que era para ser de todos, e acabou virando terra de ninguém. Eis um dos sintomas do tsunami social – que, na minha opinião, vem por aí.

Há uma montanha de outros. Madames indiferentes em pressinha a bordo de camionetes blindadas. Bandidos e suas vítimas escondendo-se por detrás do mesmo insufilme. A polícia já quase nocauteada. A roubalheira e o projeto político totalitário dos petistas. A desfaçatez de Lula. O silêncio dos intelectuais. O cinismo de políticos e magistrados.

Dizer o quê a um filho, nessa hora? Antes de mais nada, a verdade. “Estejam preparados para viver tempos bem complicados”, eu digo aos meus dois sempre que tenho uma chance. Para usar uma palavra na moda entre os consultores, “tentem ser resilientes”. Mal traduzindo, resiliência é um termo médico que designa a capacidade humana de absorver choques, adaptando-se ao trauma e acumulando energia para superá-lo, tão logo cesse a tensão que ele causa.

Trocando em miúdos, procuro dizer a Paulo e Pedro que não esperem encontrar muita moleza vida afora – e saibam adaptar-se aos tombos e às adversidades. No mais, tento incutir-lhes duas atitudes capitais. Se o destino lhes trouxer alegrias, sejam gratos, e aproveitem-nas sem culpa. Se, no entanto, ele lhes portar tristezas, sejam fortes e saibam delas extrair as lições devidas.

Não é fácil enxergar as engrenagens da História em movimento. Hoje em dia, porém, são tantos os sinais, que só não a decifra quem não quer. O pior desses sinais é a nossa própria indiferença.

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