Filhos crescem

O tempo inteiro filhos crescem. Pedro, semanas atrás, deu um salto na vida – do banco de trás pro dianteiro do carro. Ficou até emocionado. Sentou-se, afivelou o cinto, arregalou os olhos… E partimos, cúmplices naquele pequeno acontecimento dominical – e no compromisso de não revelá-lo à mãe. “Pronto”, pensei. “Cresceu mais um pouco…”.

E Paulo, então? Flagrei-o outro dia conversando ao celular com um contador. Tão cedo não imaginava isso possível. Aos 22 anos, vai criando juízo: dirige vídeos, abriu sua própria empresa, anda ralando um bocado, e, percebo, mais apaixonado do que nunca por Adelita, o seu favo de mel.

A vida é um emaranhado de encruzilhadas. Estou numa delas. Paulo e Pedro crescem. O primeiro parece ter encontrado as coordenadas básicas para seu plano de vôo pela vida. Pedro tem os olhinhos ainda banhados pela espuma da infância – mas já emite esporádicos sinais de autonomia. Gostaria que isso fosse facilmente adiável, mas, o tempo inteiro, filhos crescem.

A infância e a juventude têm uma certa luz que jamais regressará aos nossos olhos. O doce pássaro da juventude nunca regressa de seus vôos. Pedro, meu caçula, ainda exibe essas fagulhas mágicas. Elas me comovem. Há momentos em que tudo parece caber em seus olhos; toda a sabedoria, pureza, emoção, tristezas e alegrias do mundo. Não obstante, é só um olhar de menino. Tenho uma teoria pessoal a esse respeito. Acho que as crianças, como sonhavam os filósofos estóicos da antiguidade, conseguem viver apenas o presente. Têm total desapego pelo que já se foi – e absoluta indiferença pelo que virá.

Gradativamente, porém, nosso eixo racional nos move em direção ao futuro. Adolescentes chegam ao cúmulo de desejar que o tempo voe. De todo modo, a partir de certo instante, tornamo-nos todos escravos involuntários do porvir. Moram lá a realização dos nossos sonhos, as metas e as recompensas. Para lá convergem a maioria de nossos esforços e expectativas. O problema é que, em nome desse futuro incerto, abrimos mão de muita coisa certíssima. Do presente, por exemplo.

É ao conferir ao futuro demasiada importância que começamos a deixar de viver com a devida intensidade o presente. É em nome dessa fase sobre a qual não temos o menor grau de controle ou previsibilidade, que muitas vezes deixamos de viver o momento. Parece-me um raciocínio filosoficamente insano. Por uma razão muito simples: quem não vive o presente, não constrói um passado. E é ele, o passado, o nosso maior ativo. A garantia de que, no futuro, teremos do nosso lado ao menos um bom cesto de lembranças – que nos permitirá fazer piqueniques no outono na vida.

Aproveite, portanto, cada fagulha da luz mágica que vem dos olhos de seus filhos. Elas iluminarão sua alma quando ele tiverem finalmente crescido.

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