Cine Proust

O escritor francês Marcel Proust foi um obcecado pelas próprias lembranças. Num mergulho corajoso nessas águas geralmente turvas, escreveu sua obra-prima, uma série de romances chamada Em Busca do Tempo Perdido. Uma galeria de personagens fascinantes e uma viagem sinuosa que, em seu final, no derradeiro volume, chamado O Tempo Redescoberto, vai dar sabe onde? Na infância. Isso mesmo. Em coisas como cheiro de mãe, titias e amiguinhos. Fragmentos singelos dos primeiros anos de vida. Todos nós, cada qual ao seu tempo e nos limites da própria capacidade de entendimento, também empreendemos essa mesma jornada. Nascemos, cruzamos a infância em meio às alegrias de quintal e, na adolescência, sentindo-nos criaturas invulneráveis. E então, sem nos darmos conta, cruzamos as décadas seguintes com a vida roubando, debaixo de nossas narinas, exatamente aquilo que nela carregamos de mais precioso: o tempo!

Sim. O tempo é nosso bem mais caro – e, mesmo assim, ele nos é surrupiado impiedosamente, de todos os modos e a todo instante. O chefe chato; os congestionamentos; as conversas e protocolos inúteis; os serões; a musiquinha intragável da espera telefônica, as filas, os guichês… Ladrões de minutos. Coisas que custam tempo. Um preço que quase sempre pagamos sem pestanejar. Só mais tarde, e caso a razão acompanhe os cabelos brancos, nos damos conta desse furto continuado. Com a parte inferior da ampulheta já quase repleta de areia, começamos a perceber quão valiosas e finitas são as nossas horas.

O tempo! Eis um conceito difícil de transmitir aos filhos. Como dizer a Pedro, um moleque imerso na magia de seus 9 anos, que três horas diante de um videogame é um desperdício de sua vidinha? Ou a Paulo, em plena aurora dos twenties, que cedo ou tarde todas essas horas consumidas em baladas trepidantes soarão despropositadas? São coisas que eles terão de descobrir por conta própria. Mas é possível passar-lhes alguns recados. O mais eficaz? Oferecer-lhes o que resta de nosso próprio tempo. Dar-lhes nosso maior tesouro, em sua irrefreável contagem regressiva. De que forma, exatamente? Tendo a acreditar que uma de nossas maiores missões na vida é ajudá-los a colecionar boas lembranças. Pode ser uma viagem mágica. Ou uma ida ao estádio em final de campeonato. Ou, simplesmente, um bom cheeseburger num almoço de sábado. O importante é que esse tempo lhes seja incondicionalmente entregue. Mesmo que sejam meros minutinhos antes de seguir para o trabalho e outros tantos ao regressar para casa, reserve, crie, arranje tempo para os seus filhos. Eles merecem muito mais sua atenção do que sua carreira ou seu espelho.

Além disso, cedo ou tarde, iniciaremos todos a tocante viagem de volta. Nossa odisséia de Proust. Um resgate emocional sob a forma de recordações. Uma avaliação comovente daquilo que de melhor fomos capazes de comprar e construir com a moeda mais valiosa de nossas vidas. Nosso cineminha particular. Use sabiamente o seu tempo – e garanta desde já o seu ingresso.

Uma resposta para Cine Proust

  1. Lu disse:

    Nossa… Pedro, tenho pensado muito nas lembranças que deixaremos para nossos filhos.
    Tenhos muitas lembranças boas e gostaria que minha filha tivesse uma coleção de lembtanças saudosas da sua infância.
    E, como você mesmo escreveu, não adianta dizermos que horas na frente de um video game são perdidas, eles, um dia, aprenderão por si só! Como nós aprendemos muitas coisas que eram nos ditas e ignoradas.

    Adorei seu blog! Obrigada pelos textos maravilhosos!!!

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