Árvores da vida

Lições que a natureza dá de graça

Nossa nova casa tem algumas árvores bastante simbólicas. Um velho e majestoso flamboyant, com mais de 20 metros de altura, brota a três passos do chão da sala. Uma jabuticabeira nos faz cócegas nas narinas com o cheiro doce de suas floradas. Há também uma gardênia inebriante e uma mangueira nenê. Fora os genéricos; as chamadas plantas.

Adicionei à paisagem um pequeno cipreste italiano, que trouxe de Campos do Jordão. Sempre amei essa espécie. Por isso, fiz questão de eu mesmo dar-lhe as boas-vindas, cavoucando a terra e instalando-a bem diante da janela de meu quarto.

É impressionante como essas árvores prestam-se a metáforas e à metafísica. Outro dia vi Pedro à escrivaninha, tendo ao alcance dos olhos, além da janela, os galhos floridos da jabuticabeira. A cena me enterneceu. Nada orna mais com uma infância feliz que uma jabuticabeira. Meu caçula cresce tendo por pano de fundo o suceder das estações na filigranas de seus galhos e folhas.

O flamboyant conta outra história. Seu tronco parece uma pata de tiranossauro cravada no solo. Ou, numa imagem menos eloqüente, um gigantesco pé de galinha. Seus galhos sobem e ramificam-se, até terminar na folhagem delicadamente espessa que cobre o quintal de sombra. Gosto de me imaginar como o velho flamboyant. Exposto com resignação e desassombro às tempestades da vida. Como as muralhas de madeira de uma cidade medieval.

As árvores podem nos ensinar muitas coisas – e a principal delas talvez seja o fato de que todas as criaturas têm um ciclo a cumprir. Ontem nada. Hoje, algo. Amanhã nada outra vez. A vida, parecem nos dizer suas folhas cada vez que o vento sopra, é uma roda – em que a mesma natureza que um dia tudo trouxe, noutro dia tudo levará.

Os antigos romanos respeitavam a natureza, suas lições e sinais – e raramente se insurgiam contra os seus desígnios. Memento mori (lembre-se de que morrerá) foi uma das mais famosas divisas filosóficas romanas da Antiguidade. Carpe Diem (viva o momento) foi outra. Na combinação saudável (e não auto-destrutiva) dessas duas máximas podem residir virtudes sublimes. Uma resignação serena, por exemplo. A capacidade de aceitar o destino sem amargura. E as coisas, como elas são. Lições que, figuradamente, tento extrair de minhas árvores – para, na medida do possível, transmiti-la aos meus filhos.

Foi pensando em coisas assim que plantei o cipreste italiano – justo ele que, por ser comum em cemitérios, costuma inspirar idéias lúgubres. “Fulano esticou o cipreste”, me disse um amigo outro dia. Tolice. O cipreste é uma árvore e esbelta, austera e bela. Além disso, permite que, a cada manhã, ao abrir a janela de meu quarto, eu possa me deparar com minha própria finitude. Espero que meus filhos herdem uma idéia de morte menos devastadora que esta que socialmente alimentamos. Eles precisam compreender que é exatamente o fato da vida um dia acabar que a torna tão mágica. Que, cedo ou tarde, morreremos todos. Ponto. No hard feelings… Não temer essa partida inevitável pode ser o convite para uma vida muito melhor.

2 respostas para Árvores da vida

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