A vila Bela Vista

Como sempre feliz feito um esquilinho, Pedro saboreou hoje seu enésimo macarrão dominical no QG de nossa família. Na Vila. Ou Vila Bela Vista, como anunciava à entrada uma velha plaqueta metálica cujo paradeiro adoraria conhecer. São seis casinhas brancas geminadas, no topo do que deve ter sido um dia uma colina do bairro paulistano de Perdizes. “Ela é uma espécie de útero”, costuma dizer meu primo Zé Luís. “Se você não resistir, vai lá tomar um cafezinho e acaba passando o resto da vida”.

A verdade é que a Vila é mesmo nosso epicentro. A grande referência afetiva de pelo menos duas dezenas de primos. Um cenário já esculpido no coração de pelo menos cinco gerações de italianos e portugueses. A Vila é nosso ninho. Muitos já nasceram, viveram e morreram ali. Todos sabemos que, de modo ou outro, podemos contar com ela. Um abrigo aconchegante, que já acolheu doentes terminais, viúvas recentes, órfãos súbitos, adolescentes em época de vestibular, filhos melindrões e genros desempregados. Desde que, evidentemente, pertencessem à família – ou com ela mantivessem uma ligação mais profunda, o que, no fundo, quer dizer a mesma coisa.

O carinho sempre foi por ali uma grande moeda de troca. A cada novo luto, uma canja que só existe na Vila tinha o dom de resgatar nossas esperanças. A cada novo parto, é lá, nas casinhas modestas e na ladeira de paralelepípedos, que, mais tarde, esse recém-chegado irá descobrir as alegrias de quintal.

Três matriarcas enfeitam esse jardim das nossas vidas. Três irmãs: Yolanda, Lina e Dida. Três viúvas. Três mães que já perderam filhos. Três velhinhas adoráveis. Cada qual em seu sobradinho, perfumando de erva-cidreira as noites solitárias, e de um aroma inebriante de molho de tomate as manhãs de domingo.

Yolanda, a mais velha, não muito distante do centenário, vive deletando arquivos pelo caminho. Mesmo assim, ao nos ver, ri feito uma criança. Lina, algumas poucas posições atrás no grid etário, jamais negou aos seus, que sempre foram muitos, um colo incondicional. É a nossa santinha. Dida, para ser bem direto, é minha mãe. É a caçula e guia espiritual desse trio. E também, é claro, a eterna paixão de minha vida.

Que bom, que dádiva que meus filhos ainda puderam protagonizar um trecho desse lindo filme. Olhar aquelas seis casinhas brancas, sentar ao sol na escadaria estreita de seus quintais. Olhar o mundo lá fora de suas janelinhas azuis. Experimentar, ainda que momentaneamente, a maravilhosa intensidade de uma famiglia no mais calabrês dos sentidos. Saber, mesmo que seja só para mais tarde sentir saudades, que, durante um certo período de suas vidas, eles fizeram parte de algo maior. De uma cadeia de afetos. De um círculo de lealdade. Às vezes heróico como uma legião romana; noutras, patético como o exército de Brancaleone.

Que meus filhos ao menos levem consigo um retrato da nossa boa e velha Vila Bela Vista. E que essa imagem de seus sobrados e das três irmãs possa guiá-los por esses tempos de famílias pequeninas, pouco afeto e muita culpa.

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