A nossa Varig

Se o destino não nos reservar nada em contrário, embarco, dentro de algumas horas, para Istambul. Vamos, minha mulher e eu, atrás de ruínas greco-romanas e das tais planícies asiáticas em que, segundo Paulo Mendes Campos, “o amor pode ser outra coisa”. Mas o que importa, nesse momento, é outra coisa. Até Frankfurt, voaremos, como quase sempre, pela Varig. Com a diferença de que, talvez, estejamos decolando num dos derradeiros vôos da companhia. É possível até que, quando você estiver lendo essas linhas, a velha Varig já não exista. Essa notícia vai doer em muita gente. Aqui em casa, pelo menos, prestaremos as reverências cabíveis. Afinal, será como se, de algum modo, nos roubassem um pedaço da infância – no caso de Pedro, com sua aurorinha ainda no prazo de validade.  Quanto a mim, acho que ficará faltando um belo quadro na memória. Até hoje me lembro do seguinte episódio.  

Aos seis ou sete anos de idade, eu tinha, na cidade do interior paulista em que vivia, dois vizinhos amigos. Numa manhã de domingo, um deles me convidou para ver o filme novo de Tarzan na matinê do cinema – à época uma aventura equivalente a hoje… digamos… dar uma volta num submarino polar. Recusei. Preferi continuar à mesa, em companhia do irmão mais velho, sonhando com os aviões que ele colecionava sob a forma de centenas de recortes de revistas. Ele via Caravelles, Constelations, Electras, Boeing 707… Eu via máquinas com o dom de nos levar, pelo céu, a lugares de nomes hipnóticos: Roma, Paris, Madri, Tóquio, Lima, Nova York… Foi ali, naquelas páginas pacientemente recortadas, que conheci a estrelinha da Varig.  Na maioria das vezes, foi sentado nas poltroninhas azuis de seus jatos que, mais tarde, tive o privilégio de descobrir que mistérios, afinal, se escondiam sob o céu daqueles nomes. Viajar sempre foi a minha paixão predileta. Um traço que, presumo, leguei a Paulo e Pedro. Nada nos ensina tanto. Até hoje posso ver a expressão de orgulho do primeiro, quando embarcou desacompanhado em Miami, num vôo de volta ao Brasil. Ou de Pedro, ainda nenê, improvisando uma estroboscópica com as luzinhas de leitura de bordo. Ou, pior, pouco tempo atrás, vomitando sem parar num regresso da Europa. Vivemos juntos um belo cesto de experiências aladas – boa parte delas a bordo de aeronaves da Varig. Como os recortes de meu amigo querido, montamos, graças às viagens, uma extensa e maravilhosa coleção de lembranças. A Varig faz parte delas – e ponto! Jamais pedi um favor a ela – mas, de certo modo, sinto-me seu devedor. Não vou discutir aqui aspectos técnicos da questão: má gestão, monopólio, vocação perdulária.  Gostaria apenas de deixar registrado que, caso o desfecho dessa história seja mesmo a falência da companhia, pelo menos aqui em casa observaremos um minuto de silêncio – e, quem sabe, uma ou duas lágrimas sejam derramadas. Por mais uma página da história que se vira sob nossos olhos. Por uma estrela brasileira que já não brilha mais no céu azul.               Varig, Varig, Varig…

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