A falta que ela me faz

Eu ainda me lembro vagamente das duas. Manuela, um toquinho de gente, corria pela casa só de calcinha, sacudindo os cachinhos ruivos de seus cabelos sedosos. Luiza era uma moreninha sapeca, ciente de sua beleza e jeito faceiros. Como a mãe, adorava jaboticabas. Minhas filhas… Duas crianças lindas que nunca nasceram. Tiveram de ceder seus assentos na grande viagem da vida, a fim de que Paulo e Pedro pudessem embarcar. Em algum lugar da genética humana, elas ficaram para trás. Foram descartadas como possibilidades. Não tive filhas. Por outro lado, tive, sim. De certo modo, ainda as tenho. É mais ou menos como diz o Alberto Caieiro/Fernando Pessoa em seu mais sublime poema. Se não me engano: “Minha vida inteira nunca guardei rebanhos. Mas é como se os guardasse…”.

Se seguro no colo uma bebezinha, fico abobalhado. Devo admitir também que olho sempre com uma pitada de inveja as garotinhas da mais nova safra da família, filhas de meus primos. Lindas. Dengosas. Princezinhas descalças, em seus dois, quatro ou meia-dúzia de aninhos. Dotadas de um encanto sublime e forte o bastante para que, não tenho a menor dúvida, eu me rastejasse por elas o resto de minha incerta existência. Certamente fariam de mim gato e sapato. Mas eu teria ali, a cada novo dia, aqueles cachinhos ruivos ou a morenice irresistível ao meu permanente alcance. Mas, não. Ah, as havaianinhas rosas, as Barbies e daminhas de honra e espetáculos de balé no fim do ano que nunca terei. Saibam que isso dói em mim, pais de princesinhas de todo o mundo.

Bem, como tudo na vida, tem também o outro lado. Ou, melhor, aí é que começam as minhas dúvidas. Imagino-me sem problemas pai de meninas a quem amaria incondicionalmente – e, creio, seria correspondido. Mas minha intuição, minha notória falta de experiência no ramo e, confesso, também o rude sangue calabrês que carrego nas veias, tudo isso junto sugere fortemente que eu, com o tempo, me tornaria presa fácil do ciúme. Ouso dizer que eu comeria, em companhia desse cidadão sombrio, o pão que o diabo amassou com seu peludo casco.

Acho que me corroeria as entranhas presenciar aquele adolescente abusado introduzir sua língua asquerosa naquela boquinha inocente que tantos beijos me dera, e elas (Deus de céu…) adorassem. E mais adiante, então, quando você está lá, tranqüilamente lendo o seu jornalzinho, e sua própria filha começa a fitá-lo abraçada ao inevitável predador, que provavelmente pensa: “Como é que é, sogrão? Vai demorar a subir para que eu possa dar uns guentas na sua filha? Amanhã eu tenho aula na faculdade cedo, pô…”

Mas a natureza é muito sábia. Presumo que, no devido tempo, ela despeje na corrente sanguínea alguma substância que impeça sogros de esganar os seus genros. Ou, mais provavelmente, o princípio é o mesmo para filhos e filhas. O simples fato de vê-los felizes nos seda. A vida, no entanto, não me deu a chance de atestar isso na prática. Deu-me Paulo e Pedro. Mesmo assim, de vez em quando Manuela e Luiza tornam a povoar os meus sonhos. Nessas horas, pais de princesinhas descalças, eu os invejo, sim.

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