A dor sem remédio

No colo de uma serra, serenamente debruçada sobre as ruínas da cidade greco-romana de Éfeso, hoje na costa turca do mar Egeu, há uma casinha. Os tijolos vermelhos à vista e suas formas arredondadas sugerem uma construção bizantina. A casa é de uma simplicidade que convém a certos mitos. Dizem que Maria, mãe de Jesus, nela viveu os últimos anos de sua vida. Teria sido trazida ali por João, um dos apóstolos de seu filho morto. O lugar me desencadeou sentimentos bem intensos. Tão logo cruzei o umbral da porta, topei com um pequeno altar em tono do qual dezenas de pessoas rezavam, apertadas. A maioria chorava. Eram todos brasileiros, os primeiros que minha mulher e eu encontramos em nossa perambulação pela Turquia.

A cena tocou-me profundamente. Meus pensamentos iniciaram uma procissão vertiginosa. Acorreu-me a lembrança do escritor português José Saramago. Eu ficara fascinado com seu livro O Evangelho segundo Jesus. Ao entrevistá-lo, bons anos atrás, em sua casa em Lisboa, indaguei-o sobre uma expressão que ele usara recorrentemente no romance e que, à época, causara-me uma forte impressão: a dor sem remédio. “Todos têm pelo menos uma na vida”, ele me disse. E qual é a sua?, eu lhe perguntei. Ele me respondeu, sem titubear e com uma brumazinha triste no olhar: “A morte de minha mãe”. Ainda em meio ao odor de incenso e velas que inundava a casinha, uma outra lembrança antiga incrustou-se em meus neurônios. Minha mãe, então próxima aos sessenta anos, acabara de regressar de sua primeira viagem à Europa. Quis saber o que mais a tocara no Velho Mundo. “Quando vi a Pietà, de Leonardo da Vinci, no Vaticano. Chorei muito…”, ela me disse. Poucos anos anos antes, no dia de Natal, morrera Beto, meu único irmão e seu outro único filho. Dei-me conta, então, de que fora essa, sem qualquer concorrente à altura, a tal “dor sem remédio” na vida de minha mãe.

Com as feições já naquele estado entre o sublime e o patético, em que as lágrimas alcançam o pescoço e a coriza ameaça invadir a boca, deixei a casinha em busca do ar que me faltava. O que mais me reserva a vida no capítulo perdas? Qual será, afinal, a minha dor sem remédio? Provavelmente, como sucedeu a Saramago, a partida de minha mãe – algo que, provavelmente, deverá me devastar internamente muito mais do que hoje imagino. Como boa parte dos filhos desses nossos insensatos tempos, vejo pouco minha mãe. Menos, certamente, do que deveria. Reservo-lhe aquela atenção um tanto impaciente com que brindamos os idosos e algumas míseras tardes de domingo que, eu sei, inundam seu coração de alegria. Na casa de Maria me dei conta de que, caso a vida siga seu curso esperado, um dia pagarei bem caro por essa atenção descuidada. Por, de certa forma, sonegar a ela o que dela venho recebendo às toneladas cada dia de minha vida: um amor incondicional. Terei, então, minha própria dor sem remédio. Ela preencherá o imenso vazio deixado por minha Maria – uma ferida na alma que nem o tempo e nem as palavras e nem Deus algum será capaz de aplacar.

4 respostas para A dor sem remédio

  1. Lucas Miranda disse:

    Todas as dores advindas de um sentimento de culpa e perda são sem remédio, deixamos de ver nos olhos dos outros o momento lindo passar para nos preocuparmos com a vida q nossos olhos irão ver.
    Os nossos poucos momentos de tempo com alguém que amamos se torna angústia ao lembrarmos dos nossos afazeres e acabam nos dificultando de vivermos todos os dias intensamentes.
    Nunca ive a oportunidade de conhecer outros lugares fora do Brasil e mesmo dentro do país conheço pouco, mas já conheci muito bem a dor sem remédio, a dor da perda que nunca sára e nunca cicatriza.
    Já dizia Schopenhauer, “pra tristeza não há remédio.”

  2. gandra disse:

    É isso aí, caro Lucas.
    A “dor sem remédio” não tem pátria.
    Abraço carinhoso!

    JRG

  3. FRANCISCA COELHO disse:

    gostei do blog, deixo o meu blog mensagens linda, deixe um comentario..miss. Francisca
    http://franciscafesempre.wordpress.com/

  4. Maria Cristina Machado disse:

    Tive até hoje duas “Dores sem remédios”. Uma foi a partida de meu adorado pai p/ o “plano esperitual”, se é que existe mesmo, plano espiritual. Outra foi a morte da minha gata “Tábata” outro meu gde e verdadeiro amor. Foram duas situações em fiquei sem vontade de nada…

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