Esperança Zero

24 agosto 2006

No rastro do último post, em que disse que os carros venceram os paulistanos na batalha pela primazia na paisagem urbana, uma constatação ainda mais dolorosa. São Paulo oferece hoje à imensa maioria de seus habitantes uma qualidade e estilo de vida deploráveis. A cidade é cenário de uma singular desesperança – da qual o trânsito é apenas o sintoma mais flagrante.

Em menos de quarenta anos, a cidade deixou de ser uma metropolezinha relativamente pujante, em muitos detalhes ainda revestida por um certo charme europeu, para se tornar um daqueles pesadelos contemporâneos a que os americanos costumam chamar de grandes cidades. Só que do Terceiro Mundo, o território sombrio da globalização – do qual São Paulo, aliás, parece concentrar todas as pragas e sinas. A poluição da Cidade do México; o trânsito exasperador do Cairo, a miséria de Bombaim e, sob outros véus, uma violência equivalente à de Bagdá. Não se trata de uma combinação de traços urbanísticos exatamente feliz.

Tenho às vezes a impressão de que, infelizmente, São Paulo já se encontra num ponto sem volta. Nela, exceto para os carros, o espaço público praticamente desapareceu. Nada me toca tanto quanto o sumiço das praças, que hoje só servem para mendigos dormirem e imbecis levarem seus cachorros fazer cocô. Nada retrata melhor a concepção paulistana média de espaço público do que um cão numa praça, retesado, enquanto despeja sobre e grama ou calçada uma exuberante amostra metabolizada de sua ração. Espaço Público, para um paulistano, não é o lugar de todos. É a terra de ninguém.

São Paulo torna-se, cada vez mais, uma cidade-dormitório de si mesma. As pessoas vão trabalhar, trabalham, voltam do trabalho, descansam e tornam a trabalhar. Fim de semana? Se tiver dinheiro, uma praia. Se tiver menos, um shopping. Se não tiver, bem-vindo ao exército invisível – o mesmo que, cedo ou tarde, varrerá a cidade em arrastões.

Cada qual de acordo com suas possibilidades, paulistanos de todas as classes tentam se defender. Caminhonetes blindadas; condomínios fechados, segurança privada, arame farpado, alarmes de ultima geração. Inútil. Os muros subirão até onde for humanamente possível. Depois disso, não tenho dúvida, ruirão.

São Paulo, e como ela o Brasil, emite todos os sinais de uma convulsão iminente. Banditismo político, instabilidade social, uma ganância travestida de eficiência e um tecido social cada vez mais esgarçado. Mas o pior sinal, insisto, é nossa própria indiferença. As pessoas não têm tempo para nada. Estão mais preocupadas em garantir seu presente que em defender seu futuro das nuvens negras que tingem o céu.

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A cidade e os carros

23 agosto 2006

Pedro vai à escola de carro. Ao inglês, de carro. À casa da avó, de carro. À banca da esquina, de carro. O menino praticamente vê a cidade pelo pára-brisas do Scenic. É triste admitir, mas nós, paulistanos, perdemos a batalha para os automóveis. Nossa cidade tornou-se território deles.

Pior: a bordo de um carro, todo paulistano parece desnudar sua natureza no que ela pode vir a ter de mais sombria. Nessa procissão motorizada caudalosa e incessante, bandidos e vitímas potenciais ocultam-se por trás do mesmo insulfilme. Como ícone dessa situação nada animadora, a tola pressinha paulistana. A irresistível vontade de chegar mais rápido – mesmo que sejam apenas 2,5 segundos. O trânsito em Sampa é uma caixinha de surpresas desagradáveis. Tem o fura-filas. O histérico. O estressado. O asssassino já calejado ou prestes a revelar-se ao mundo. Seguem todos dentro dessas latinhas que, feito glóbulos ansiosos na corrente sanguínea, vão ocupando cada mísero espaço – e transformando a cidade em um emaranhado de estradas pessoais. Pouco a pouco, uma após outra, vão desaparecendo as ruas tranquilas. Toda rua paulistana, hoje, por menor que seja, é caminho ou atalho de alguém rumo ao trabalho ou de volta para casa. Em 99,9% dos casos, alguém com pressa.

A mais emblemática personagem dessa tragédia poderia chamar-se, digamos, Madame Pajero. Uma mãe de classe média alta, como muitas outras, que, encarapitada numa espécie de tanque adaptado ao asfalto, dirige ostentando pelos demais (motorizados e pedestres) a mesma delicadeza reservada por Godzila aos edifícios de Tokyo ou Nova York. Blindadas. Arrogantes. E, acima de tudo, indiferentes.

Em São Paulo, a indiferença faz a diferença. É ela que torna o próximo invisível, a própria pressa uma prioridade inegociável, e o local onde os outros moram apenas uma forma mais curta ou menos congestionada de chegar à própria casa. Paulistanos chegam, abrem seus portõezinhos elétricos, enclausuram-se. Sequer conhecem os vizinhos.

O trânsito, em São Paulo, é o retrato da corrosão da cidade – e das relações entre seus habitantes. Criaturas sem tempo para nada. Nem mesmo para constatar a miserável condição em que vivem.


Dica de leitura

22 agosto 2006

Uma dica matinal aos pais (e mães, é claro) de plantão.

O livro Pai e Filho (ed. Sextante, 248 pág.) de Tony Parsons.

Ele traz a história de um jovem pai londrino que, numa dessas viradas da vida (depois de deixá-lo, a ex-mulher muda-se para o Japão), passa a cuidar, sozinho, de um menino de 5 anos.

O estilo lembra o de Nick Hornby (Alta Fidelidade).

Uma obra pop, com o inconfundível senso de humor inglês e um olhar terno e atento às sutilezas e desafios da paternidade.

Espero que vocês aproveitem. 

Abraço carinhoso!

Zé Ruy Gandra


A arte de criar filhos sadios num mundo insano

19 agosto 2006

Graças à minha cunhada digital, Miriam Salles, doravante patrona perpétua deste espaço, este meu blog entra na roda num dia muito especial – o do décimo aniversário de Pedro, o meu filho mais novo.

Paulo, o mais velho, fruto de um outro casamento, tem 23 anos – e é lindo. Os dois são. Veja só a fotinho mais abaixo:

São eles os personagens centrais da Pátrio Poder, a coluna que assino mensalmente na revista VIP. Eles, eu, as infindáveis lições que me ensinam, os sentimentos gloriosos que me inspiram. Tanto a coluna quanto esse singelo blog lançam um olhar muito especial à paternidade – e à maternidade também, é claro. São, digamos, espaços dedicados à arte de criar filhos sadios num mundo tão insano.

Na categoria Pátrio Poder, você encontra os arquivos de todas as colunas já publicadas. Espero que, de algum modo, Paulo e Pedro possam inspirá-lo também.

Carinhoso abraço!

Zé Ruy Gandra 

Pedro e PauloPaulo (esq.), e o pequeno grande Pedro: amores.