Ai dos vencidos…

11 setembro 2006

Se, como muita gente, você se espanta com a violência empregada pelos Estados Unidos no Iraque e Afeganistão, deveria ler um livro fascinante chamado O INCÊNDIO – Como os aliados destruíram as cidades alemãs 1940-1945. Seu autor é o historiador berlinense Jörg Friedrich e a editora, a Record.

Você verá que essa prática dos americanos e seu caráter altamente belicoso e expansionista não são coisas recentes.  Num estilo envolvente, e fundamentado em toneladas de informações, Jörg nos mostra o grau de premeditação, incrível crueldade e absurda frieza com que os ataques aéreos aliados (americanos e ingleses) foram conduzidos ao longo de quase toda a Segunda Guerra Mundial.

É impressionante como os bombardeios aliados literalmente varreram, uma após outra, as cidades alemãs do mapa. Pela primeira vez na História, os civis (e as cidades) foram tratados como alvos estratégicos. Os combates, antes, em sua grande maioria, resumiam-se ao confronto direto de exércitos. Quando muito ao ataque a instalações militares em certos centros urbanos. Dai em diante, acabaram-se os limites, previstos, por sinal, em inúmeras convenções internacionais. 

Um detalhe particularmente cruel. Os bombardeios tinham sempre como a mosca do alvo os centros históricos das cidades germânicas. A razão? Na maioria delas, esse centro era um conjunto de construções medievais, erguidas com farta utilização de madeira (as tais casinhas thimberland). Os americanos apostavam em sua alta inflamabilidade para, despejando centenas de milhares de bastões de fósforo, criar nessas áreas os focos iniciais de um incêndio que, com o posterior reforço das bombas incendiárias e de fragmentação, transformava essas áreas numa autêntica fornalha a céu aberto. Muitos civis morreram, encurralados em seus abrigos subterrâneos por essa muralha incandescente.

Mesmo no final do conflito, com o poderio bélico alemão já quase destroçado, a chuva de bombas tornou-se ainda mais intensa. Cidades como Hamburgo, Dresden e Munique, monumentos barrocos, foram praticamente aniquiladas.

Guerra é guerra, eu sei. E a primeira coisa que ela mata é a verdade. Não duvido das atrocidades do regime nazista e tampouco da ameaça que seu triunfo representaria para toda a Humanidade. Me incomoda, porém, essa versão oficial aliada triunfalista, em que americanos e ingleses posam de nobres guerreiros ciosos dos limites humanos do conflito.

Como todas as demais partes envolvidas no confronto, eles foram cruéis. Aliás, a História está repleta de exemplos e provas de que, de pacíficos, ingleses e americanos não têm nada. Os chamados anglo-saxões sempre foram chegados numa guerra expansionista.

O bacana do livro é que ele mostra, com sensatez, o outro lado. Que não foram só os moradores de Londres que sofreram com os bombardeios de áreas civis. As incursões sobre Londres, aliás, foram infinitamente menos devastadoras que o bombardeio sistemático das cidades alemãs.

O livro mostra que, no interior daqueles alvos, quadrados demarcados com frieza nos mapas dos bombardeiros, havia gente comum (padeiros, enfermeiras, crianças…) lutando contra um pesadelo proveniente do céu. Centenas de milhares de civis alemães morreram nesses ataques, bem mais que as poucas dezenas de milhares de civis londrinos.

Nascia ali a obsessão americana de querer resolver as coisas militarmente, e do alto – com bombardeios cada vez mais precisos e tecnologicamente sofisticados. É a chamada “guerra asséptica”. Nascia, também, um precedente nojento: o de que o ataque aos alvos civis é uma contingência das guerras. Mais que isso, até, um modo eficaz de vencê-las.

Nascida na Segunda Guerra, essa premissa se alastraria pelas décadas subsequentes. Na própria Segunda Guerra, com as bombas nucleares sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki. Na Coréia. No Vietnã. E, por fim, no Afeganistão e Iraque. Um a um, os focos de resitência a sua hegemonia militar e econômica vão sendo quebrados. Mas a um preço que, a longo prazo, costuma tornar as aventuras imperialistas inustentáveis.

Penso em Würzburg, eleita Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco e porta de entrada da chamada Rota Romântica, um colar de cidades medievais que, na medida do possível, ainda preservam traços marcantes de sua passada exuberância histórica. Penso em Würzburg num ensolarado domingo de março de 1944. O céu de fim de inverno é de um azul ofuscante. Crianças brincam nas ruas. Muita gente vai às compras ou aos parques. Então, precedidos por um rumor crescente, cerca de 1.000 aeronaves aliadas sobrevoam o velho burgo – e sobre ele despejam milhares de toneladas de bombas.

Würzburg ainda hoje é linda de morrer. Imagine antes que o céu se abrisse, despejando fogo, morte e devastação.

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Ruy Barbosa em alta

8 setembro 2006

A missão a que me referi em meu post anterior era a produção de um perfil de Ruy Barbosa para a revista Época. Ruy foi eleito, por um juri de especialistas reunido por essa publicação, o Maior Brasileiro da História. Segue o link:

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG75278-6014-434,00.html

A edição ficou muito boa. Surpreenderá muita gente saber que o chamado Águia de Haia, tido por muitos como uma figura aborrecida e prolixa, foi um dos grandes arquitetos das instituições democráticas brasileiras.

Ruy combateu muitos bons combates. Bateu-se pelo federalismo, pela Abolição, por anistias, pela reforma bancária, pelo voto universal e pela igualdade entre as nações, para ficar em apenas algumas das causas que abraçou ao longo de sua vida cheia de surpresas.

Algumas delas. Ruy redigiu a primeira Constituição da República Federativa do Brasil (promulgada em 1891), foi seu primeiro ministro da Fazenda e, coisa que poucos sabem, sucedeu Machado de Assis na presidência da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Ruy Barbosa era um visonário, cuja imagem hoje começa a ser resgatada por cientistas políticos e sociais e também por economistas. Mesmo assim, e apesar de sua inteligência invulgar, que todos reconheciam, concorreu quatro vezes à Presidência sem ter vencido nenhuma delas.

Ruy foi muitas coisas, como verão os que lerem a matéria.

Foi, acima de tudo, alguém que soube aprender com o tempo.

Abraço geral!


A importância de criar

4 setembro 2006

Queridos Amigos,

Estive fora do ar durante alguns dias, por conta de uma matéria que me exigiu um bocado, mas trouxe consigo coisas muito bacanas. A principal talvez seja uma convicção: a de que não podemos, jamais, perder contato com a dimensão criativa de nossos trabalhos.

Pelo menos no mercado editorial, minha praia, é comum que, à medida que ascendem na carreira, os jornalistas se ocupem cada vez mais com a gestão e menos com a essência criativa de seu trabalho, o ato de escrever. Isso, sinceramente, não me parece bom.

A gestão é necessária, mas, em especial nesses tempos difíceis, vem tornando muitos bons jornalistas infelizes. Devagarinho, ela, por assim dizer, rouba-lhes o prazer.

Nada, na minha opinião, se compara à sensação de investigar determinado conteúdo, introjetá-lo, dissecá-lo interiormente sob os mais diferentes pontos de vista até, por fim, devolvê-lo ao mundo sob a forma de palavras. Isso sim me satisfaz.

Quando for hora lhes mostrarei (ou vocês verão) o fruto desse meu recente esforço. Por enquanto, aceitem meu abraço e minhas desculpas pela ausência temporária.

E lembrem-se: se não é feliz com o que faz, você não é nada.

All you need is love (what you have and do)!

Zé Ruy 


Coluna na revista VIP de setembro

25 agosto 2006

Amigos,

Encontra-se disponível, na Categoria Pátrio Poder, o arquivo Árvores da Vida, com conteúdo de minha coluna na edição da revista VIP que acaba de chegar às bancas – cuja compra, aliás, recomendo vivamente. Espero que esse texto possa servir de largada para nossas reflexões e eventuais conversas. Carinhoso abraço!

Zé Ruy Gandra


Esperança Zero

24 agosto 2006

No rastro do último post, em que disse que os carros venceram os paulistanos na batalha pela primazia na paisagem urbana, uma constatação ainda mais dolorosa. São Paulo oferece hoje à imensa maioria de seus habitantes uma qualidade e estilo de vida deploráveis. A cidade é cenário de uma singular desesperança – da qual o trânsito é apenas o sintoma mais flagrante.

Em menos de quarenta anos, a cidade deixou de ser uma metropolezinha relativamente pujante, em muitos detalhes ainda revestida por um certo charme europeu, para se tornar um daqueles pesadelos contemporâneos a que os americanos costumam chamar de grandes cidades. Só que do Terceiro Mundo, o território sombrio da globalização – do qual São Paulo, aliás, parece concentrar todas as pragas e sinas. A poluição da Cidade do México; o trânsito exasperador do Cairo, a miséria de Bombaim e, sob outros véus, uma violência equivalente à de Bagdá. Não se trata de uma combinação de traços urbanísticos exatamente feliz.

Tenho às vezes a impressão de que, infelizmente, São Paulo já se encontra num ponto sem volta. Nela, exceto para os carros, o espaço público praticamente desapareceu. Nada me toca tanto quanto o sumiço das praças, que hoje só servem para mendigos dormirem e imbecis levarem seus cachorros fazer cocô. Nada retrata melhor a concepção paulistana média de espaço público do que um cão numa praça, retesado, enquanto despeja sobre e grama ou calçada uma exuberante amostra metabolizada de sua ração. Espaço Público, para um paulistano, não é o lugar de todos. É a terra de ninguém.

São Paulo torna-se, cada vez mais, uma cidade-dormitório de si mesma. As pessoas vão trabalhar, trabalham, voltam do trabalho, descansam e tornam a trabalhar. Fim de semana? Se tiver dinheiro, uma praia. Se tiver menos, um shopping. Se não tiver, bem-vindo ao exército invisível – o mesmo que, cedo ou tarde, varrerá a cidade em arrastões.

Cada qual de acordo com suas possibilidades, paulistanos de todas as classes tentam se defender. Caminhonetes blindadas; condomínios fechados, segurança privada, arame farpado, alarmes de ultima geração. Inútil. Os muros subirão até onde for humanamente possível. Depois disso, não tenho dúvida, ruirão.

São Paulo, e como ela o Brasil, emite todos os sinais de uma convulsão iminente. Banditismo político, instabilidade social, uma ganância travestida de eficiência e um tecido social cada vez mais esgarçado. Mas o pior sinal, insisto, é nossa própria indiferença. As pessoas não têm tempo para nada. Estão mais preocupadas em garantir seu presente que em defender seu futuro das nuvens negras que tingem o céu.


A cidade e os carros

23 agosto 2006

Pedro vai à escola de carro. Ao inglês, de carro. À casa da avó, de carro. À banca da esquina, de carro. O menino praticamente vê a cidade pelo pára-brisas do Scenic. É triste admitir, mas nós, paulistanos, perdemos a batalha para os automóveis. Nossa cidade tornou-se território deles.

Pior: a bordo de um carro, todo paulistano parece desnudar sua natureza no que ela pode vir a ter de mais sombria. Nessa procissão motorizada caudalosa e incessante, bandidos e vitímas potenciais ocultam-se por trás do mesmo insulfilme. Como ícone dessa situação nada animadora, a tola pressinha paulistana. A irresistível vontade de chegar mais rápido – mesmo que sejam apenas 2,5 segundos. O trânsito em Sampa é uma caixinha de surpresas desagradáveis. Tem o fura-filas. O histérico. O estressado. O asssassino já calejado ou prestes a revelar-se ao mundo. Seguem todos dentro dessas latinhas que, feito glóbulos ansiosos na corrente sanguínea, vão ocupando cada mísero espaço – e transformando a cidade em um emaranhado de estradas pessoais. Pouco a pouco, uma após outra, vão desaparecendo as ruas tranquilas. Toda rua paulistana, hoje, por menor que seja, é caminho ou atalho de alguém rumo ao trabalho ou de volta para casa. Em 99,9% dos casos, alguém com pressa.

A mais emblemática personagem dessa tragédia poderia chamar-se, digamos, Madame Pajero. Uma mãe de classe média alta, como muitas outras, que, encarapitada numa espécie de tanque adaptado ao asfalto, dirige ostentando pelos demais (motorizados e pedestres) a mesma delicadeza reservada por Godzila aos edifícios de Tokyo ou Nova York. Blindadas. Arrogantes. E, acima de tudo, indiferentes.

Em São Paulo, a indiferença faz a diferença. É ela que torna o próximo invisível, a própria pressa uma prioridade inegociável, e o local onde os outros moram apenas uma forma mais curta ou menos congestionada de chegar à própria casa. Paulistanos chegam, abrem seus portõezinhos elétricos, enclausuram-se. Sequer conhecem os vizinhos.

O trânsito, em São Paulo, é o retrato da corrosão da cidade – e das relações entre seus habitantes. Criaturas sem tempo para nada. Nem mesmo para constatar a miserável condição em que vivem.


Dica de leitura

22 agosto 2006

Uma dica matinal aos pais (e mães, é claro) de plantão.

O livro Pai e Filho (ed. Sextante, 248 pág.) de Tony Parsons.

Ele traz a história de um jovem pai londrino que, numa dessas viradas da vida (depois de deixá-lo, a ex-mulher muda-se para o Japão), passa a cuidar, sozinho, de um menino de 5 anos.

O estilo lembra o de Nick Hornby (Alta Fidelidade).

Uma obra pop, com o inconfundível senso de humor inglês e um olhar terno e atento às sutilezas e desafios da paternidade.

Espero que vocês aproveitem. 

Abraço carinhoso!

Zé Ruy Gandra