Onde está o seu riozinho?

Todo mundo tem o seu riozinho na vida – literal ou figuradamente. O meu é real; um regatinho estreito e de águas limpas, que corria um pouco além dos quintais da cidadezinha do interior paulista em que eu vivia. Talvez nem corra mais, engolido pela cidade. Tenha sido canalizado. Virado esgoto. De todo modo, ele é o rio da minha vida. Meu para sempre. É como na música de Caetano Veloso: “Eu pus os meus pés no riacho e acho que nunca os tirei”. A infância é isso. Um barulhinho d’água que nos acompanha pelo resto da vida. Acredito piamente que tudo o que somos, a tal identidade mais profunda, define-se enquanto nossa idade, arredondemos, não passa de um dígito. Até esse ponto, o mundo, as pessoas e as experiências ainda nos moldam feito argila. Nesse período, traçam-se, a partir de situações dramáticas ou absolutamente corriqueiras, nossos grandes vetores.

Nossa força. Nossas futuras competências. Nossa capacidade (ou incapacidade) de amar. Nosso grau de confiança nas pessoas. O medo do escuro e o alívio das auroras. Todo o imutável nasce ali. O nosso molde e essa armadura que, para o bem e para o mal, jamais retiraremos: o caráter. O resto serão sempre variações sobre o mesmo tema.

ETERNO PRESENTE

Não sei dizer que espécies de riozinhos correm pelos corações de Paulo e Pedro, meus filhos. Algum certamente haverá. Talvez um shopping. Ou o pátio da escola e seu torvelinho na hora do recreio. Quem sabe coisas que eu particularmente abomine, como bufês infantis, tornem-se, na memória deles, as referências decisivas da infância.

Quem sabe coisas que eu nem longinquamente imagino.
O certo é que, cedo ou tarde, os dois também partirão em busca dessas referências fundamentais. No rastro das raízes da alma. Embarcarão, também eles, na grande viagem da memória. Todos fazem isso um dia, dêem-se ou não conta disso. Por um bom tempo em nossa vida, a infância é relegada a um segundo plano. Viver, quando se é jovem, é exatamente isso: viver. O passado já se foi; o futuro ainda não veio. “É o present continuous”, explicava, jocoso, um amigo da faculdade. Nessas horas, vejo hoje, a memória atrapalha: constrange, arma ciladas, parece até nos afastar de nós mesmos. Há um momento da vida, porém, em que ela reaparece. Primeiro, esparsamente, sob a forma de flashes.

Depois, de modo mais consistente: o cheiro gostoso do avental da avó enquanto cozinhava, a barba de um tio a nos pinicar o rosto, o prazer de um colo, o céu espetacularmente estrelado nas noites escuras, uma mão a segurar a nossa e alguém muito querido nos ajudando a olhar. Há quem veja nesse apego às reminiscências um exercício melancólico. Bobagem. A memória é nossa alma. Que seria de mim hoje, tantas rasteiras da vida depois, caso não pudesse recordar o calor e o aroma da cama de meus pais, sempre que me abrigavam após um despertar assustado? Como poderia eu confortar e divertir os meus filhos sem o lastro dessas lembranças? Que seria de mim sem meu riozinho? É imperativo, vital, que ele permaneça correndo, singelo e limpinho em meu coração.

Publicado originalmente na edição de setembro de 2005 da revista VIP. Leia outros textos clicando sobre seus títulos nos links da categoria Pátrio Poder, mais abaixo nesta página .

12 respostas para Onde está o seu riozinho?

  1. Zé, agora sim, sua primeira página tá bacana. Quanto à crônica, assim como as outras, dispensam comentários.

    bjs

  2. …corrigindo: “dispensa” domentários.

  3. …corrigindo 2: “dispensa” comentários.

  4. gandra disse:

    Ou será “compensa dismentários”?
    Beijo!

    ZR

  5. Piu disse:

    Oi Zé Ruy,
    Muito bom ler suas crônicas, você certamente navega no meu riozinho. Um beijão Piu

  6. gandra disse:

    Fala, meu anjo!
    Que alegria a sua visita.
    Pode apostar que você também navega o meu.
    Beijão, que peço estender à family.

    ZR

  7. poller disse:

    Poller says : I absolutely agree with this !

  8. Renascence disse:

    Somehow i missed the point. Probably lost in translation🙂 Anyway … nice blog to visit.

    cheers, Renascence.

  9. Marlene Gandra disse:

    Vi seu sobrenome e por isso t deixando contato. Moro em Divinópolis/MG.

  10. Deus disse:

    Caro, seu comentário sobre a capa da revista Época foi mais nojeto que a própria capa. Tá querendo emprego lá, puxa saco de merda? Faça um favor para o mundo: morra e leve seus pensamentos com você!

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