Cabeça de homem

Deus é testemunha de que tentei escanear a capinha vermelha do livro que vou comentar – mas cada vez mais me convenço de que, tecnologicamente, o estágio mais avançado que consegui atingir foi o Post It. Que, por sinal, a não ser quando a colinha seca, não costuma falhar.

Queria aproveitar esse finalzinho de sexta-feira para lhes recomendar vivamente, mas vivamente mesmo, um livro. Chama-se O Animal Agonizante (Companhia das Letras, 127 pág.), foi escrito pelo americano Philip Roth (A Pastoral Americana e Teatro de Sabath, entre outros romances) e me foi recomendado pela sábia e doce figura de João Gabriel de Lima, editor executivo de Época. Tks, Johnny!

É uma história de amor contada por uma ótica visceralmente masculina. Na carona da liberação sexual dos anos 60, um professor universitário larga mulher e filho e passa a traçar suas jovens alunas. A cada ano, coloca pelo menos uma delas no papo insaciável.

Passa décadas nessa vida. Até que, aos 62 anos, apaixona-se perdidamente por uma delas, Consuela, uma fogosa cubana  38 anos mais jovem e um tanto deslumbrada com a fama do teacher. É o começo do fim.

Dessa vez, o narrador, até então um intelectual perfeitamente seguro de si, entra em parafuso. Passa a ser perseguido por um ciúme doentio e pela premonição torturante de que, a qualquer momento, Consuela o trocará por algum rapaz mais novo. Ele sabe que ela ainda o fará. Ele próprio já foi,  inúmeras vezes, esse rapaz mais novo.

Philip Roth disseca esse amor outonal. O livro quase cheira a testosterona. Mas mostra, maravilhosamente bem, como funcionam a cabeça e, principalmente, a libido masculinas a partir da meia-idade. O tesão traiçoeiramente inadiável, que já destroçou tantas carreiras e reputações, é uma presença constante no livro, sempre tratado de modo muito mordaz e em descrições bastante sensuais. 

O livro é um retrato fiel do quanto, biológica e culturalmente, o sexo muitas vezes nos escraviza, na maioria delas nos deixando muito pouca coisa boa em troca. Roth é um escritor sacana e transgressor. Uma espécie de Henry Miller mais atual e profundo. É igualmente tarado por sexo, mas não menospreza as suas armadilhas. Mesmo assim, o personagem principal O Animal Agonizante tropeça e desaba numa delas.

Abraços e bom fim de semana a todos.

Zé Ruy

14 respostas para Cabeça de homem

  1. Pedro disse:

    É verdade, A sua cabeça não falha.

  2. Luma disse:

    Li, a muito tempo um livro que acho é desse escritor: O complexo de Portnoy.
    O Aninal Agonizante tem capinha vermelha, é erótico? (rs*) brincadeira, só por causa do cheiro de testosterona!
    O personagem é bem o produto dos anos 60 e da hipocrisia da sociedade norte-americana. Não é de admirar se não acaba em tragédia!?
    Enquanto lia o seu texto, lembrei do filme “Beleza Americana”
    Anotei a dica!
    Bom fim de semana! Beijus

  3. cilene disse:

    sempre digo que tecnologicamente acho que sou anal…achei sua dica de livro muito boa..

  4. gandra disse:

    É o próprio, Luma.
    Só que agora está mais maduro. Wiser…
    Não vou lhe dizer como acaba o livro.
    Posso lhe assegurar que é surpreendente, e tão outonal quanto o protagonista.
    Beleza esse Beleza Americana. O livro é bem por aí.
    Beijo!

    ZR

  5. Luma disse:

    Vi o link!! Obrigada!! Beijus

  6. adelita disse:

    lembrei de lolita, que é um dos meus romances preferidos!
    anotada a dica, será o meu próximo livro,
    um beijo sogrão!

  7. gandra disse:

    Oi, favinho de mel!
    Tudo bem?
    Adorei ter visto vocês no domingo.
    O Pedro fica maluco quando encontra o Mano Lô.
    Beijos ao jovem casal!

  8. Nana disse:

    Zé,
    Bateu uma saudade, aí passei para dar uma olhada no que você anda escrevendo e para deixar um abraço (recebi o do outro dia, transmitido pelo japa).
    E um beijão também!
    Nana

  9. gandra disse:

    Minha querida margaridinha,

    Adorei a visita.
    Precisamos regressar ao Frangó, de preferência num dia em que ele esteja aberto.
    Vou te ligar. Também estou com muita saudade.
    Beijão!

  10. marthacorrea disse:

    Entrei no seu blog, por Aline, e “grudei” aqui, seus textos são algo que temos que ler com os olhos da alma,e nas entrelinhas também. Ameiiiiiiiiiiiii.Visite meu blog, será muito bem vindo.Um abraço

  11. artha disse:

    quem é vivo sempre apareçe.Então aqui estou…

  12. artha disse:

    Exelente texto , vou procurar o livro. um grande abraço

  13. artha disse:

    Quanto tempo…vou procurar o livro também, minha grande paixão é ler.
    beijos
    Bom domingo.

  14. Jorge Hamilton disse:

    Aposto como você se viu de alguma forma no contexto deste livro….

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