A cidade e os carros

Pedro vai à escola de carro. Ao inglês, de carro. À casa da avó, de carro. À banca da esquina, de carro. O menino praticamente vê a cidade pelo pára-brisas do Scenic. É triste admitir, mas nós, paulistanos, perdemos a batalha para os automóveis. Nossa cidade tornou-se território deles.

Pior: a bordo de um carro, todo paulistano parece desnudar sua natureza no que ela pode vir a ter de mais sombria. Nessa procissão motorizada caudalosa e incessante, bandidos e vitímas potenciais ocultam-se por trás do mesmo insulfilme. Como ícone dessa situação nada animadora, a tola pressinha paulistana. A irresistível vontade de chegar mais rápido – mesmo que sejam apenas 2,5 segundos. O trânsito em Sampa é uma caixinha de surpresas desagradáveis. Tem o fura-filas. O histérico. O estressado. O asssassino já calejado ou prestes a revelar-se ao mundo. Seguem todos dentro dessas latinhas que, feito glóbulos ansiosos na corrente sanguínea, vão ocupando cada mísero espaço – e transformando a cidade em um emaranhado de estradas pessoais. Pouco a pouco, uma após outra, vão desaparecendo as ruas tranquilas. Toda rua paulistana, hoje, por menor que seja, é caminho ou atalho de alguém rumo ao trabalho ou de volta para casa. Em 99,9% dos casos, alguém com pressa.

A mais emblemática personagem dessa tragédia poderia chamar-se, digamos, Madame Pajero. Uma mãe de classe média alta, como muitas outras, que, encarapitada numa espécie de tanque adaptado ao asfalto, dirige ostentando pelos demais (motorizados e pedestres) a mesma delicadeza reservada por Godzila aos edifícios de Tokyo ou Nova York. Blindadas. Arrogantes. E, acima de tudo, indiferentes.

Em São Paulo, a indiferença faz a diferença. É ela que torna o próximo invisível, a própria pressa uma prioridade inegociável, e o local onde os outros moram apenas uma forma mais curta ou menos congestionada de chegar à própria casa. Paulistanos chegam, abrem seus portõezinhos elétricos, enclausuram-se. Sequer conhecem os vizinhos.

O trânsito, em São Paulo, é o retrato da corrosão da cidade – e das relações entre seus habitantes. Criaturas sem tempo para nada. Nem mesmo para constatar a miserável condição em que vivem.

4 respostas para A cidade e os carros

  1. Elisa disse:

    é que correndo e trabalhando muito, não sobra tempo pra pensar sobre si mesmo.

    abraço.

  2. Zé Ruy Gandra disse:

    Oi, Elisa! Mas essa, na minha opinião, é uma situação insustentável. Não pensar em si mesmo significa quase sempre, de algum modo, abrir mão de sua idéia de felicidade. Uma hora temos de parar e refletir. Se não, quebramos. É o que estou fazendo nesse exato momento: redescobrindo o que quero.     Abração! Tks for coming! Zé Ruy

  3. Teresa disse:

    Acho que esse é o retrato das cidades, das sociedades actuais. Até eu que tenho o privilégio de viver num suburbuio de Lisboa, a 20 minutos da cidade e a 5 da praia…. é isso que observo todos os dias. Adorei a Madame Pajero. Só não digo que me tiraste as palavras da boca pois a minha escrita nunca chegará aos calcanhares da tua.😀

  4. gandra disse:

    Salve, Pá!

    Sorte a sua, pelo que descreves.
    É muito bom poder contar com a sua presença.
    Já estou me habituando a ela.
    Abraço carinhoso!

    Zé Ruy

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: