Ver Pedro em companhia de seus gatos é sempre uma cena muito inspiradora. Agora são dois. Pretinha, dois anos, e… desculpem-me os xarás… Tony, um siamês com um jeitinho piedoso, olhos celestiais e quatro meses de vida. Resumindo: uma jovem senhora e um bebê, ambos de rabo, se enredaram em nossas vidas.
Custo a crer que jamais tivera um gato antes. Era um bicho que não me inspirava muita confiança. De repente, por obra de Pedro, passei a amá-los. Curvo-me, hoje em dia, à altivez, graça e malandragem dos bichanos. Dei adeus aos cães, que haviam me cercado a vida inteira. Duvido que volte a tê-los. Virei felino total.
Minha mulher acompanhou-me nessa virada. Justo ela que, num endereço anterior, vivia batendo boca com a moradora do apartamento de cima, proprietária de uma boa dúzia de gatos. Pagou a língua. Hoje, aos primeiros raios do sol, os gatos miam junto à nossa janela e lá vai ela, quase aos tropeções, alimentar os pilantras.
Percebo agora porque os egípcios gostavam tanto de gatos – a ponto de embalsamá-los e sepultá-los em sarcófagos. Há algo de irresistivelmente charmoso e enigmático nesses animais. Não têm aquela fidelidade incondicional um tanto estúpida dos cães. Caminham pelos telhados com uma leveza quase mágica. Fazem cocô num único lugar (e o escondem) e enroscam-se em sua perna com tamanha graça que você é capaz de dar o seu próprio prato de comida a eles, caso insistam um pouquinho mais.
Também no que se refere aos filhos, gatos proporcionam boas lições. Seu gênio independente, extrema paciência e alto poder de sedução parecem-me atributos bastante compatíveis com o espírito de nosso tempo. Minha sensação é a de que, com eles, Pedro adquiriu uma noção mais precisa de que coisas importantes, como afeto, confiança e lealdade, têm de ser batalhadas e defendidas a cada dia. Arrisco dizer até que, embora tenha apenas dez anos, sua própria capacidade de negociação sofreu um upgrade. Gatos negociam o tempo inteiro: carinho, comida, brincadeiras…
No pacote figuram, é claro, algumas lições mais difíceis. Sua primeira gata, a Pretinha original, era um animal esquálido que encontramos na rua e passamos a cuidar. Pedro ficou horrorizado, ao vê-la, certo dia, entrar em casa com um pássaro a entupir-lhe a boca. E muito mais quando, em meio a uma soneca no jardim defronte à nossa casa, um labrador idiota a matou com uma dentada nas costas.
O supremo aprendizado proporcionado pelos felinos, porém, é bem mais sutil. Eles nos ensinam a dar mais e a receber menos, sem com isso ficarmos tristes. Ou, pelo menos, a valorizar e cultivar com mais assiduidade os afetos. Além disso, seres imprevisíveis que são, os gatos melhoram nossa resposta ao inesperado. É como se, com eles, o vínculo afetivo estivesse permanentemente por um fio, podendo a cada instante se desfazer ou retroceder à estaca zero. Egoístas, temperamentais. Ás vezes, até traiçoeiros. Divertidos, sedutores, surpreendentes. E, o que mais importa: eles fazem meu filho feliz.
30 Setembro 2009 às 7:16 pm
Mas como é bom ler um texto seu sobre esses bichanos verdadeiramente encantadores.
Fico feliz que aquela Pretinha, a primeira, mesmo com seu triste fim, tenha te deixado completamente apaixonado por felinos.
Me fez sorrir, por dentro e por fora.
Me fez, mais uma vez, tirar o chapéu para você, Mestre.
Saudades,
Mariana.