Se, como muita gente, você se espanta com a violência empregada pelos Estados Unidos no Iraque e Afeganistão, deveria ler um livro fascinante chamado O INCÊNDIO – Como os aliados destruíram as cidades alemãs 1940-1945. Seu autor é o historiador berlinense Jörg Friedrich e a editora, a Record.
Você verá que essa prática dos americanos e seu caráter altamente belicoso e expansionista não são coisas recentes. Num estilo envolvente, e fundamentado em toneladas de informações, Jörg nos mostra o grau de premeditação, incrível crueldade e absurda frieza com que os ataques aéreos aliados (americanos e ingleses) foram conduzidos ao longo de quase toda a Segunda Guerra Mundial.
É impressionante como os bombardeios aliados literalmente varreram, uma após outra, as cidades alemãs do mapa. Pela primeira vez na História, os civis (e as cidades) foram tratados como alvos estratégicos. Os combates, antes, em sua grande maioria, resumiam-se ao confronto direto de exércitos. Quando muito ao ataque a instalações militares em certos centros urbanos. Dai em diante, acabaram-se os limites, previstos, por sinal, em inúmeras convenções internacionais.
Um detalhe particularmente cruel. Os bombardeios tinham sempre como a mosca do alvo os centros históricos das cidades germânicas. A razão? Na maioria delas, esse centro era um conjunto de construções medievais, erguidas com farta utilização de madeira (as tais casinhas thimberland). Os americanos apostavam em sua alta inflamabilidade para, despejando centenas de milhares de bastões de fósforo, criar nessas áreas os focos iniciais de um incêndio que, com o posterior reforço das bombas incendiárias e de fragmentação, transformava essas áreas numa autêntica fornalha a céu aberto. Muitos civis morreram, encurralados em seus abrigos subterrâneos por essa muralha incandescente.
Mesmo no final do conflito, com o poderio bélico alemão já quase destroçado, a chuva de bombas tornou-se ainda mais intensa. Cidades como Hamburgo, Dresden e Munique, monumentos barrocos, foram praticamente aniquiladas.
Guerra é guerra, eu sei. E a primeira coisa que ela mata é a verdade. Não duvido das atrocidades do regime nazista e tampouco da ameaça que seu triunfo representaria para toda a Humanidade. Me incomoda, porém, essa versão oficial aliada triunfalista, em que americanos e ingleses posam de nobres guerreiros ciosos dos limites humanos do conflito.
Como todas as demais partes envolvidas no confronto, eles foram cruéis. Aliás, a História está repleta de exemplos e provas de que, de pacíficos, ingleses e americanos não têm nada. Os chamados anglo-saxões sempre foram chegados numa guerra expansionista.
O bacana do livro é que ele mostra, com sensatez, o outro lado. Que não foram só os moradores de Londres que sofreram com os bombardeios de áreas civis. As incursões sobre Londres, aliás, foram infinitamente menos devastadoras que o bombardeio sistemático das cidades alemãs.
O livro mostra que, no interior daqueles alvos, quadrados demarcados com frieza nos mapas dos bombardeiros, havia gente comum (padeiros, enfermeiras, crianças…) lutando contra um pesadelo proveniente do céu. Centenas de milhares de civis alemães morreram nesses ataques, bem mais que as poucas dezenas de milhares de civis londrinos.
Nascia ali a obsessão americana de querer resolver as coisas militarmente, e do alto – com bombardeios cada vez mais precisos e tecnologicamente sofisticados. É a chamada “guerra asséptica”. Nascia, também, um precedente nojento: o de que o ataque aos alvos civis é uma contingência das guerras. Mais que isso, até, um modo eficaz de vencê-las.
Nascida na Segunda Guerra, essa premissa se alastraria pelas décadas subsequentes. Na própria Segunda Guerra, com as bombas nucleares sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki. Na Coréia. No Vietnã. E, por fim, no Afeganistão e Iraque. Um a um, os focos de resitência a sua hegemonia militar e econômica vão sendo quebrados. Mas a um preço que, a longo prazo, costuma tornar as aventuras imperialistas inustentáveis.
Penso em Würzburg, eleita Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco e porta de entrada da chamada Rota Romântica, um colar de cidades medievais que, na medida do possível, ainda preservam traços marcantes de sua passada exuberância histórica. Penso em Würzburg num ensolarado domingo de março de 1944. O céu de fim de inverno é de um azul ofuscante. Crianças brincam nas ruas. Muita gente vai às compras ou aos parques. Então, precedidos por um rumor crescente, cerca de 1.000 aeronaves aliadas sobrevoam o velho burgo – e sobre ele despejam milhares de toneladas de bombas.
Würzburg ainda hoje é linda de morrer. Imagine antes que o céu se abrisse, despejando fogo, morte e devastação.
12 Setembro 2006 às 8:18 pm
As guerras são terríveis, qualquer guerra!! Há quem defenda, ser um mal necessário. Vai saber!
O texto que gostaria de publicar é “Bebê à Bordo”. Assim como me emocionou, gostaria de passar a emoção para outras pessoas. Posso?
Beijus
12 Setembro 2006 às 9:37 pm
Você pode publicá-lo sim, Luma, desde que dê os seguintes créditos:
Por José Ruy Gandra
Texto publicado originalmente na edição de junho de 2005 da revista VIP.
Abraço carinhoso!
Zé Ruy
13 Setembro 2006 às 7:54 am
Eu li esse livro e partilho da sua opinião. Beijocas
13 Setembro 2006 às 7:59 am
O problerma das guerras e seus efeitos é que trazem mais guerras e muito mais efeitos…
Parabens pelo blog!
Abraços!
13 Setembro 2006 às 8:15 am
Zé Ruy, cheguei aqui pelas mãos de Luma. Espere mais um pouco, que mais gente vai passar aqui. A luma é arrasta multidões rsrsrs.
Concordo plenamente com texto. Infelizmente a história é dos vencedores. Ontem mesmo disse em um blog que se devo chorar pelas vítimas do 11 de setembro tambpem devo chorar por todas as v´pitimas que a história não conta.
Parabéns
Voltarei mais vezes
13 Setembro 2006 às 10:06 am
Querida Yvonne,
É bom saber que O Incêndio anda colocando fogo em outras cabeças.
Abraço carinhoso! Apareça sempre!
Zé Ruy
13 Setembro 2006 às 10:12 am
É isso aí, Valérie. A dor não tem pátria.
Volte sempre. Você é muito bem-vinda!
E salve a Luma, que me traz figuras tão interessantes.
Abraço carinhoso!
Zé Ruy
13 Setembro 2006 às 11:37 am
Zé, cheguei aqui pela Luma que sabe garimpar novos blogs como ninguém. Gostei do seu relato quando da sua primeira separação, que graças a minha determinação de nunca casar cedo, não me deixou cair nessas armadilhas do amor ou paixão juvenil. Meu marido e eu casamos tarde com o objetivo de ser para sempre e de constituir uma família. Já são 19 anos e está dando certo!
Quanto ao livro não li, mas acho que na guerra não tem vencedores, só perdedores. Porque morre inocentes de ambos os lados. O que se saiu melhor na batalha conta a sua história e é essa que fica.
Abs.
13 Setembro 2006 às 12:38 pm
Querida Vera,
Tudo bem por aí?
Antes de mais nada, seja muito bem-vinda a nossa roda.
Concordo com você quanto aos riscos das paixões juvenis. Cheguei a tratar desse tema em outro texto (O Amor a a Amizade) da coluna Pátrio Poder. Leia-o, se puder. Agora, como diria o Paulo César Pinheiro, um injustamente pouco conhecido compositor da MPB, “o importante é que a nossa emoção sobreviva”.
E, ao menos no meu caso, apesar dos trancos e barrancos que a imaturidade colocou em meu caminho, ela sobreviveu intacta.
Não me arrependi um momento sequer da chegada do meu Paulo. Hoje temos uma relação muito especial, apesar do pilantra ter se tornado um corintiano. Paciência… Acho que ele soube crescer, valendo-se, muitas vezes, de suas próprias e frágeis defesas. Mas chegou lá. Hoje é uma pessoa maravilhosa. Meu padacinho do céu.
Concordo também quanto às guerras. Só não gosto de mitos triunfalistas.
Particularmente, acho que os americanos estão abusando da paciência da Humanidade. Não podem querer impor suas instituições (incríveis, aliás) e, principalmente, seu modo de vida, o tal “american way of life” ao mundo inteiro.
Minha mãe sempre dizia – “a diversidade é o tempero da vida.”
Um beijo carinhoso! Volte sempre!
Zé Ruy
13 Setembro 2006 às 9:33 pm
Ai dos vencidos… De fato, aos vencedores a sua “verdade”! A guerra destrói dignidade e cria um poder que mata a honra do homem!
Não li o livro, mas vou ler.
A Luma sugeriu visitar o seu blog e eu fiz bem em acatar a sugestão.
Bjos…muitas alegrias.
13 Setembro 2006 às 11:07 pm
Há muito os EUA me enoja.
14 Setembro 2006 às 9:57 am
Fala Pai, com estas??
Também estou com muitas saudades suas.
Ando trabalhando de mais ultimamente. Projetos bons acontecendo,
mas sinto falta de vocês.
Super bjo e até mais!
Paulo
14 Setembro 2006 às 9:58 am
e parabens pelo blog que anda muito legal!
14 Setembro 2006 às 10:31 am
É isso aí, cara Mércia.
A História é implacável em sua marcha.
Leia o livro, sim. Ele muda muita coisa nas nossas cabeças.
Abraço carinhoso – e muito obrigado pelas palavras gentis.
Zé Ruy
14 Setembro 2006 às 10:33 am
A você e esteja certa de que a muita gente mais.
Abraço! Seja sempre bem-vinda!
Zé Ruy
23 Setembro 2006 às 11:51 pm
Zé,
outro dia mesmo vi um documentário sobre o Robert Mc Namara, no qual, ele já velhinho, confessava que se os EUA tivessem perdido a guerra contra o Japão, seriam todos condenados como criminosos de guerra. Eu não sabia, mas os EUA mataram 50 por cento da população das 60 principais cidades japonesas.
bjs