Onde está o seu riozinho?

22 setembro 2006

Todo mundo tem o seu riozinho na vida – literal ou figuradamente. O meu é real; um regatinho estreito e de águas limpas, que corria um pouco além dos quintais da cidadezinha do interior paulista em que eu vivia. Talvez nem corra mais, engolido pela cidade. Tenha sido canalizado. Virado esgoto. De todo modo, ele é o rio da minha vida. Meu para sempre. É como na música de Caetano Veloso: “Eu pus os meus pés no riacho e acho que nunca os tirei”. A infância é isso. Um barulhinho d’água que nos acompanha pelo resto da vida. Acredito piamente que tudo o que somos, a tal identidade mais profunda, define-se enquanto nossa idade, arredondemos, não passa de um dígito. Até esse ponto, o mundo, as pessoas e as experiências ainda nos moldam feito argila. Nesse período, traçam-se, a partir de situações dramáticas ou absolutamente corriqueiras, nossos grandes vetores.

Nossa força. Nossas futuras competências. Nossa capacidade (ou incapacidade) de amar. Nosso grau de confiança nas pessoas. O medo do escuro e o alívio das auroras. Todo o imutável nasce ali. O nosso molde e essa armadura que, para o bem e para o mal, jamais retiraremos: o caráter. O resto serão sempre variações sobre o mesmo tema.

ETERNO PRESENTE

Não sei dizer que espécies de riozinhos correm pelos corações de Paulo e Pedro, meus filhos. Algum certamente haverá. Talvez um shopping. Ou o pátio da escola e seu torvelinho na hora do recreio. Quem sabe coisas que eu particularmente abomine, como bufês infantis, tornem-se, na memória deles, as referências decisivas da infância.

Quem sabe coisas que eu nem longinquamente imagino.
O certo é que, cedo ou tarde, os dois também partirão em busca dessas referências fundamentais. No rastro das raízes da alma. Embarcarão, também eles, na grande viagem da memória. Todos fazem isso um dia, dêem-se ou não conta disso. Por um bom tempo em nossa vida, a infância é relegada a um segundo plano. Viver, quando se é jovem, é exatamente isso: viver. O passado já se foi; o futuro ainda não veio. “É o present continuous”, explicava, jocoso, um amigo da faculdade. Nessas horas, vejo hoje, a memória atrapalha: constrange, arma ciladas, parece até nos afastar de nós mesmos. Há um momento da vida, porém, em que ela reaparece. Primeiro, esparsamente, sob a forma de flashes.

Depois, de modo mais consistente: o cheiro gostoso do avental da avó enquanto cozinhava, a barba de um tio a nos pinicar o rosto, o prazer de um colo, o céu espetacularmente estrelado nas noites escuras, uma mão a segurar a nossa e alguém muito querido nos ajudando a olhar. Há quem veja nesse apego às reminiscências um exercício melancólico. Bobagem. A memória é nossa alma. Que seria de mim hoje, tantas rasteiras da vida depois, caso não pudesse recordar o calor e o aroma da cama de meus pais, sempre que me abrigavam após um despertar assustado? Como poderia eu confortar e divertir os meus filhos sem o lastro dessas lembranças? Que seria de mim sem meu riozinho? É imperativo, vital, que ele permaneça correndo, singelo e limpinho em meu coração.

Publicado originalmente na edição de setembro de 2005 da revista VIP. Leia outros textos clicando sobre seus títulos nos links da categoria Pátrio Poder, mais abaixo nesta página .


Cabeça de homem

15 setembro 2006

Deus é testemunha de que tentei escanear a capinha vermelha do livro que vou comentar – mas cada vez mais me convenço de que, tecnologicamente, o estágio mais avançado que consegui atingir foi o Post It. Que, por sinal, a não ser quando a colinha seca, não costuma falhar.

Queria aproveitar esse finalzinho de sexta-feira para lhes recomendar vivamente, mas vivamente mesmo, um livro. Chama-se O Animal Agonizante (Companhia das Letras, 127 pág.), foi escrito pelo americano Philip Roth (A Pastoral Americana e Teatro de Sabath, entre outros romances) e me foi recomendado pela sábia e doce figura de João Gabriel de Lima, editor executivo de Época. Tks, Johnny!

É uma história de amor contada por uma ótica visceralmente masculina. Na carona da liberação sexual dos anos 60, um professor universitário larga mulher e filho e passa a traçar suas jovens alunas. A cada ano, coloca pelo menos uma delas no papo insaciável.

Passa décadas nessa vida. Até que, aos 62 anos, apaixona-se perdidamente por uma delas, Consuela, uma fogosa cubana  38 anos mais jovem e um tanto deslumbrada com a fama do teacher. É o começo do fim.

Dessa vez, o narrador, até então um intelectual perfeitamente seguro de si, entra em parafuso. Passa a ser perseguido por um ciúme doentio e pela premonição torturante de que, a qualquer momento, Consuela o trocará por algum rapaz mais novo. Ele sabe que ela ainda o fará. Ele próprio já foi,  inúmeras vezes, esse rapaz mais novo.

Philip Roth disseca esse amor outonal. O livro quase cheira a testosterona. Mas mostra, maravilhosamente bem, como funcionam a cabeça e, principalmente, a libido masculinas a partir da meia-idade. O tesão traiçoeiramente inadiável, que já destroçou tantas carreiras e reputações, é uma presença constante no livro, sempre tratado de modo muito mordaz e em descrições bastante sensuais. 

O livro é um retrato fiel do quanto, biológica e culturalmente, o sexo muitas vezes nos escraviza, na maioria delas nos deixando muito pouca coisa boa em troca. Roth é um escritor sacana e transgressor. Uma espécie de Henry Miller mais atual e profundo. É igualmente tarado por sexo, mas não menospreza as suas armadilhas. Mesmo assim, o personagem principal O Animal Agonizante tropeça e desaba numa delas.

Abraços e bom fim de semana a todos.

Zé Ruy


O amor acaba

14 setembro 2006

Queridos amigos, 

Queria colocar no ar uma pérola que andou meio escondida pelo tempo. O título é esse mesmo: O Amor Acaba. Paulo Mendes Campos foi um cronista mineiro de mão cheia. Foi muito ligado aos igualmente mineiros e escritores Fernando Sabino, Hélio Pelegrino e Otto Lara Rezende.

Muitos consideram esta crônica sua obra-prima. Concordo!

Abraço a todos!

Zé Ruy

O Amor Acaba – Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.


Ai dos vencidos…

11 setembro 2006

Se, como muita gente, você se espanta com a violência empregada pelos Estados Unidos no Iraque e Afeganistão, deveria ler um livro fascinante chamado O INCÊNDIO – Como os aliados destruíram as cidades alemãs 1940-1945. Seu autor é o historiador berlinense Jörg Friedrich e a editora, a Record.

Você verá que essa prática dos americanos e seu caráter altamente belicoso e expansionista não são coisas recentes.  Num estilo envolvente, e fundamentado em toneladas de informações, Jörg nos mostra o grau de premeditação, incrível crueldade e absurda frieza com que os ataques aéreos aliados (americanos e ingleses) foram conduzidos ao longo de quase toda a Segunda Guerra Mundial.

É impressionante como os bombardeios aliados literalmente varreram, uma após outra, as cidades alemãs do mapa. Pela primeira vez na História, os civis (e as cidades) foram tratados como alvos estratégicos. Os combates, antes, em sua grande maioria, resumiam-se ao confronto direto de exércitos. Quando muito ao ataque a instalações militares em certos centros urbanos. Dai em diante, acabaram-se os limites, previstos, por sinal, em inúmeras convenções internacionais. 

Um detalhe particularmente cruel. Os bombardeios tinham sempre como a mosca do alvo os centros históricos das cidades germânicas. A razão? Na maioria delas, esse centro era um conjunto de construções medievais, erguidas com farta utilização de madeira (as tais casinhas thimberland). Os americanos apostavam em sua alta inflamabilidade para, despejando centenas de milhares de bastões de fósforo, criar nessas áreas os focos iniciais de um incêndio que, com o posterior reforço das bombas incendiárias e de fragmentação, transformava essas áreas numa autêntica fornalha a céu aberto. Muitos civis morreram, encurralados em seus abrigos subterrâneos por essa muralha incandescente.

Mesmo no final do conflito, com o poderio bélico alemão já quase destroçado, a chuva de bombas tornou-se ainda mais intensa. Cidades como Hamburgo, Dresden e Munique, monumentos barrocos, foram praticamente aniquiladas.

Guerra é guerra, eu sei. E a primeira coisa que ela mata é a verdade. Não duvido das atrocidades do regime nazista e tampouco da ameaça que seu triunfo representaria para toda a Humanidade. Me incomoda, porém, essa versão oficial aliada triunfalista, em que americanos e ingleses posam de nobres guerreiros ciosos dos limites humanos do conflito.

Como todas as demais partes envolvidas no confronto, eles foram cruéis. Aliás, a História está repleta de exemplos e provas de que, de pacíficos, ingleses e americanos não têm nada. Os chamados anglo-saxões sempre foram chegados numa guerra expansionista.

O bacana do livro é que ele mostra, com sensatez, o outro lado. Que não foram só os moradores de Londres que sofreram com os bombardeios de áreas civis. As incursões sobre Londres, aliás, foram infinitamente menos devastadoras que o bombardeio sistemático das cidades alemãs.

O livro mostra que, no interior daqueles alvos, quadrados demarcados com frieza nos mapas dos bombardeiros, havia gente comum (padeiros, enfermeiras, crianças…) lutando contra um pesadelo proveniente do céu. Centenas de milhares de civis alemães morreram nesses ataques, bem mais que as poucas dezenas de milhares de civis londrinos.

Nascia ali a obsessão americana de querer resolver as coisas militarmente, e do alto – com bombardeios cada vez mais precisos e tecnologicamente sofisticados. É a chamada “guerra asséptica”. Nascia, também, um precedente nojento: o de que o ataque aos alvos civis é uma contingência das guerras. Mais que isso, até, um modo eficaz de vencê-las.

Nascida na Segunda Guerra, essa premissa se alastraria pelas décadas subsequentes. Na própria Segunda Guerra, com as bombas nucleares sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki. Na Coréia. No Vietnã. E, por fim, no Afeganistão e Iraque. Um a um, os focos de resitência a sua hegemonia militar e econômica vão sendo quebrados. Mas a um preço que, a longo prazo, costuma tornar as aventuras imperialistas inustentáveis.

Penso em Würzburg, eleita Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco e porta de entrada da chamada Rota Romântica, um colar de cidades medievais que, na medida do possível, ainda preservam traços marcantes de sua passada exuberância histórica. Penso em Würzburg num ensolarado domingo de março de 1944. O céu de fim de inverno é de um azul ofuscante. Crianças brincam nas ruas. Muita gente vai às compras ou aos parques. Então, precedidos por um rumor crescente, cerca de 1.000 aeronaves aliadas sobrevoam o velho burgo – e sobre ele despejam milhares de toneladas de bombas.

Würzburg ainda hoje é linda de morrer. Imagine antes que o céu se abrisse, despejando fogo, morte e devastação.


Ruy Barbosa em alta

8 setembro 2006

A missão a que me referi em meu post anterior era a produção de um perfil de Ruy Barbosa para a revista Época. Ruy foi eleito, por um juri de especialistas reunido por essa publicação, o Maior Brasileiro da História. Segue o link:

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG75278-6014-434,00.html

A edição ficou muito boa. Surpreenderá muita gente saber que o chamado Águia de Haia, tido por muitos como uma figura aborrecida e prolixa, foi um dos grandes arquitetos das instituições democráticas brasileiras.

Ruy combateu muitos bons combates. Bateu-se pelo federalismo, pela Abolição, por anistias, pela reforma bancária, pelo voto universal e pela igualdade entre as nações, para ficar em apenas algumas das causas que abraçou ao longo de sua vida cheia de surpresas.

Algumas delas. Ruy redigiu a primeira Constituição da República Federativa do Brasil (promulgada em 1891), foi seu primeiro ministro da Fazenda e, coisa que poucos sabem, sucedeu Machado de Assis na presidência da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Ruy Barbosa era um visonário, cuja imagem hoje começa a ser resgatada por cientistas políticos e sociais e também por economistas. Mesmo assim, e apesar de sua inteligência invulgar, que todos reconheciam, concorreu quatro vezes à Presidência sem ter vencido nenhuma delas.

Ruy foi muitas coisas, como verão os que lerem a matéria.

Foi, acima de tudo, alguém que soube aprender com o tempo.

Abraço geral!


A importância de criar

4 setembro 2006

Queridos Amigos,

Estive fora do ar durante alguns dias, por conta de uma matéria que me exigiu um bocado, mas trouxe consigo coisas muito bacanas. A principal talvez seja uma convicção: a de que não podemos, jamais, perder contato com a dimensão criativa de nossos trabalhos.

Pelo menos no mercado editorial, minha praia, é comum que, à medida que ascendem na carreira, os jornalistas se ocupem cada vez mais com a gestão e menos com a essência criativa de seu trabalho, o ato de escrever. Isso, sinceramente, não me parece bom.

A gestão é necessária, mas, em especial nesses tempos difíceis, vem tornando muitos bons jornalistas infelizes. Devagarinho, ela, por assim dizer, rouba-lhes o prazer.

Nada, na minha opinião, se compara à sensação de investigar determinado conteúdo, introjetá-lo, dissecá-lo interiormente sob os mais diferentes pontos de vista até, por fim, devolvê-lo ao mundo sob a forma de palavras. Isso sim me satisfaz.

Quando for hora lhes mostrarei (ou vocês verão) o fruto desse meu recente esforço. Por enquanto, aceitem meu abraço e minhas desculpas pela ausência temporária.

E lembrem-se: se não é feliz com o que faz, você não é nada.

All you need is love (what you have and do)!

Zé Ruy 


Coluna na revista VIP de setembro

25 agosto 2006

Amigos,

Encontra-se disponível, na Categoria Pátrio Poder, o arquivo Árvores da Vida, com conteúdo de minha coluna na edição da revista VIP que acaba de chegar às bancas – cuja compra, aliás, recomendo vivamente. Espero que esse texto possa servir de largada para nossas reflexões e eventuais conversas. Carinhoso abraço!

Zé Ruy Gandra


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